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ATENÇÃO: Estou repostando o livro Vinho de Cereja com algumas alterações (inclusive no título), não deixe de dar sua opinião nos comentários!

Capítulo Um – O Grande Começo

Como Você Se Sentiria?

Por Luma Nunes

Capítulo Dois
Ele Não Está tão Afim De Você

Três anos depois

Abro a janela do quarto para deixar o ar circular e para o dia me trazer boas vibrações, arrumo minha cama e dou uma olhada geral para ver se não deixei nada fora do lugar, pego o meu Bullet Jounal para olhar o que preciso fazer hoje e anoto alguns compromissos na agenda do celular. Mas é basicamente uma entrevista de emprego, entregar a arte de um cliente, lavar o banheiro e encontrar com Dean mais tarde. Ao ler o nome de Dean, minha barriga ainda faz alguns movimentos engraçados, olho para nossa foto no criado mudo e tenho a sensação de que em algum momento, fechei os olhos para beijá-lo e quando acordei, três anos já tinham se passado. Nunca rolou um pedido de namoro oficial, é simples assim, estamos juntos.

Estou terminando de me vestir quando ouço a campainha tocar. Olho meu relógio de pulso: seis e meia da manhã. Tão pontual e tão cedo assim, só pode ser a Carol. Ela pediu para me acompanhar na ioga para conhecer depois de ver minhas fotos no Instagram na quais estou em várias posições inusitadas. Ouço tons de voz alterados vindos da sala e é melhor eu sair rápido se quiser manter minha casa inteira.

– O que você está fazendo aqui? – Carol pergunta irritada.

– Ei, Carol. – Logan a cumprimenta com a voz cinicamente sonolenta. – Bom te ver, bom dia! Gostaria de entrar?

Paro na copa observando a interação entre eles. Logan está de frente para ela e de costas pra mim, usando uma calça jeans baixa, descalço e sem camisa, apoiando o braço no portal. Céus, ele adora provocar. Carol me ver por debaixo de seu braço e é a deixa que precisa para empurrá-lo violentamente e entrar no apartamento, mas Logan é Logan, ele quase não se mexe fazendo com que ela tenha que se esfregar em sem peitoral e passar espremida por entre a porta e seu corpo sarado. Reviro os olhos, eles não podem ser adultos.

– Giovana, o que está acontecendo aqui? – ela diz como se fosse a mulher traída que acaba de pegar o marido no flagra com a melhor amiga

– Bom dia. – Digo enchendo a cafeteira com água e café. – Eu é que pergunto. O que está acontecendo aqui?

Carol coloca as mãos na cintura. E olho para ela tentando segurar o riso, ela está muito engraçada usando justas e o cabelo preso em um rabo de cabelo alto e apertado. Seu rosto está vermelho e começo a me preocupar com a possibilidade de ela infartar a qualquer segundo.

– O que esse palhaço tá fazendo semi nu na sua casa a essa hora da manhã?

Não respondo de imediato, tomo meu tempo para me servir café e sentar na bancada. Dou os ombros e tomo o primeiro gole, decidindo colocar mais açúcar na bebida.

– Logan não gosta de voltar dirigindo pra casa quando bebe, dai ele passa a noite aqui no sofá – explico calmamente.

Logan mora longe do centro, é comum ele dormir no meu sofá às sextas ou sábados ou o final de semana inteiro. Já dormimos na mesma cama algumas vezes, começamos assistindo filme e quando vemos já amanheceu. Mas Logan tem o sono agitado, então o sofá acaba sendo a melhor opção. Carol bufa ao ver o lençol e o travesseiro que estão jogados no sofá e ele se aproxima dando-me um beijo na bochecha e murmurando bom dia antes de seguir para a cafeteira e deixar o açúcar completamente de lado.

– O Dean ligou, disse que esqueceu o celular em casa – Logan passa o recado.

– Que novidade! – meu namorado só não esquece a cabeça porque está grudada no pescoço. – Lo? Veste a camisa.

– Por causa dela? – ele pergunta indignado.

Deus me dê forças.

– Porque estamos saindo e você precisa manter a roupa no corpo, já falamos sobre isso.

– O Dean sabe desse arranjo de vocês? E a Bea? Meu Deus, vocês só podem estar loucos– Carol pergunta perplexa com nossa rotina.

– Qual é o problema? Eu e o Logan somos amigos, não estamos fazendo nada de errado, Carol. Bea está na Irlanda há dois anos, mas respondendo sua pergunta, sim ela sabe. E Dean está consciente de tudo isso, não é como se fosse diferente quando a gente começou  namorar. Não sei porque a surpresa, na verdade.

Eu e Bea nos mudamos para esse apartamento quando estávamos no meio da faculdade, logo depois ela ganhou uma bolsa para ir para a Irlanda, pensei em procurar um lugar menor, mas me apaixonei por esse apartamento e eu podia arcar com o valor do aluguel, então optei por ficar e hoje uso o quarto dela como escritório, perfeito. O café queima minha boca e eu praguejo baixinho, Logan se encosta na bancada exibindo os seis gominhos da barriga sarada.

– Ela está assim só porque eu não quis comer ela na festa de despedida – ele diz coçando a barba.

– Logan! – chamo sua atenção.

Carol está de volta há poucos dias depois de uma temporada na França. Um dia antes de sua partida, fizemos uma festinha, todos nós passamos dos limites com as bebidas, mas a Carol se superou. Lembro-me nitidamente de estar conversando com o Logan na varanda, quando ela chegou, colocou os braços no pescoço dele e o guiou até seu quarto. Um tempo depois, Logan voltou atordoado, nunca conversamos sobre o que aconteceu lá porque, bem, não era necessário, mas agora começo a compreender que entendi tudo errado. Suspiro. Carol sai pisando duro, soltando fogo pelas narinas e bate a porta com força.

– Precisava? – reclamo em vão porque ele parece bem satisfeito. – Tranca a porta. E veste a camisa – digo enquanto jogo o resto da minha xícara de café fora e começo a colocar meus pertences na bolsa. Chaves, celular, chicletes… E um maço de cigarros.

– Achei que você tivesse parado – ele observa.

Não respondo porque eu também achei que tivesse parado com esse hábito, mas por incrível que pareça nem toda a ioga do mundo e meditação foram capazes de aliviar a tensão dessa semana. Ele se aproxima de mim e segura meu pulso, fazendo eu parar meus afazeres.

– Você vai se sair bem, não fica nervosa – assegura.

O mais curioso? Eu não tinha percebido que estava nervosa até me sentir subitamente calma por suas palavras. Hoje vou para minha primeira entrevista de emprego desde que tenho um diploma. E essa entrevista vai para o lado oposto do que sonhei nos últimos quatro anos. Logan brinca com meu relógio.

– Você é talentosa, G. – ele diz buscando meus olhos, me fazendo abrir um sorriso radiante pra ele. – Sei que não era o seu plano, mas…

– Preciso ir. – Me despeço dando-lhe um beijo na bochecha porque não posso fazer isso agora. – Obrigada.

– Eu vou pra Nova York hoje. Vou na clínica ver sua mãe, preciso levar alguma coisa? – ele pergunta quando alcanço a porta.

Balanço a cabeça negativamente, mas então me lembro.

– Ela gosta de flores azuis.

Bato a porta e vou atrás da Carol.

~

Há algo de mágico quando o céu assume o tom violeta alaranjado no final da tarde, sempre fico hipnotizada com essa beleza. Abro a janela do carro quando me aproximo da ponte, o apanhador de sonhos pendurado no retrovisor dança com a brisa que entra. Eu adoro passar por aqui, o cheiro muda, a temperatura cai, mas mesmo assim me sinto aquecida pelas lembranças. Sinto falta da minha Harley, da sensação de liberdade que ela me proporcionava e que é tão diferente de estar aprisionada em um carro, mas sei que não posso ser motivo de preocupação para as pessoas ao meu redor. Olho para o diamante na minha mão esquerda, um lembrete de que sou importante para alguém. Tomada por todas essas lembranças, ligo para o meu noivo para avisar que cheguei na cidade antes do previsto e que finalmente podemos cozinhar o risoto de cogumelos que vimos na internet já que nosso almoço foi por água abaixo.

Chama até cair e esse é o empurrão que o destino precisava me dar para eu fazer uma surpresa. Paro no supermercado a um quarteirão do apartamento do Dean e depois de uma rápida inspeção pelas prateleiras, pego cogumelos, pimentão, tomates e queijo, a caminho do caixa, escolho uma garrafa de vinho branco. Perfeito! Enquanto passo as compras no caixa, ligo pro Logan.

– Olá, senhorita – ele atende prontamente, me fazendo sorrir porque o telefone mal chamou.

– Uau. Tava com o celular na orelha?

– Não me orgulho disso, mas confesso que sou rápido no gatilho.

– Acho que essa é uma informação desnecessária.

Sua risada vibra do outro lado da linha. Eu não lembro de nenhuma vez que tenha me sentido triste ao lado de Logan, claro que esses momentos já existiram – no dia que nós conhecemos, por exemplo, mas ele nunca fez eu me sentir que fosse errado ficar triste e sempre dava um jeito de me fazer sorrir, talvez seja por isso que eu esteja ligando para ele agora, porque não tenho a mínima ideia de como estou me sentindo agora e preciso dele para clarear minha mente.

– Então… Parece que vamos trabalhar juntos, afinal de contas– conto a novidade.

– Meus parabéns, mas eu já sabia – ele diz calmamente.

Depois de uma rodada de entrevistas, consegui emprego na agencia em que o Logan é alocado, mas eu vou trabalhar diretamente com um cliente.  Consegui pegar o rebranding de uma marca que fez sucesso nos anos noventa e agora está de volta ao mercado. Logan foi peça fundamental nessa conquista, ele mostrou meu trabalho de Lettering para um amigo, que tinha uma amiga que conhecia alguém da marca e me colocou na jogada.

– Eu só queria agradecer a força, se não fosse você me indicado…

– O mérito é todo seu. Você, Giovana Torres, é uma sabichona talentosa. Olha… – lá vamos nós – eu sei que você não quer falar sobre isso, mas eu vou falar, então sugiro que você desligue agora na minha cara e nunca mais olhe nos meus olhos azuis.

É disso que estou falando.

– Bom, você não desligou.

– Não.

– Giovana, eu sei que não era o que você queria. Eu sei qual era o seu plano e sei o quanto ele significa pra você. Mas isso não significa que você tem que abandonar seu sonho, você só vai adiar por um tempo. Você lembra da nossa música, da que ouvimos juntos na cachoeira? Would things be easier if there was a right way?
Honey, there is no right way. – ele cantarola. -Eu te prometo que você não vai se arrepender. Eu prometo a você, Gi…

– Logan ? Eu estou bem.

E agora estou dizendo a verdade. É verdade que junto dinheiro desde o segundo semestre da faculdade, é verdade que eu e meu pai tínhamos planos de conhecer alguns países juntos e que depois eu iria me estabelecer em Londres, é verdade que esse emprego atrapalha tudo isso. Mas não é como se fosse acontecer exatamente como o plano original, considerando que meu pai morreu pouco meses depois de plantar essa semente no meu peito, mas é algo que eu continuo querendo fazer, dessa vez sozinha, honrando sua memória. Logan tem razão, é o emprego dos sonhos, não é um trabalho que costuma ser entregue a uma pessoa que acabou de sair das fraldas.

– Eu sei que a melhor escolha agora é ficar, por isso te agradeço. Como foi na clínica? – pergunto melancólica.

– Foi ok. Nos divertirmos jogando dominó. Ela gostou das flores que eu levei e até flertou comigo.

– Oitenta e dois reais e trinta centavos, senhora – a moça do caixa anuncia. Desviando a minha atenção do assunto “minha mãe com Alzeheimer”.

– Estou no supermercado, vou tentar fazer um risoto, topa? – convido tentando desanuviar minha mente.

– Huum… Estou tentado, mas já tenho compromisso.

Quando Logan fala que tem compromisso é um código secreto para “vou transar hoje”. Em sua defesa, ele nunca deixou de sair comigo por causa de outra mulher. Ele sempre diz que amizade vem em primeiro lugar.

– Compromisso? Desde quando rabo de saia é compromisso, Logan? – tiro sarro.

Depois de um silêncio incômodo, ele solta:

– Acontece que esse rabo de saia… Talvez, seja diferente.

Caminho até meu carro com o celular preso entre o ombro e a orelha enquanto equilibro minhas sacolas nas mãos. Essa informação me pega de surpresa, consigo imaginar sua nuca ficando vermelha ao me contar isso porque sinto minha própria nuca pegando fogo.

– Tem essa garota, a gente tem saído às vezes.

Algo cresce no meu peito, sou tomada por uma ansiedade esquisita e não consigo controlar o impulso de fazer um milhão de perguntas. Por anos, nós nunca deixamos nada pra depois e agora meu melhor amigo está saindo com uma garota que eu nem faço ideia de quem seja. Estou acostumada a isso, Logan é mulherengo desde a faculdade mas não é de sair algumas vezes. Solto uma risada nervosa.

– Você tá falando sério? O que aconteceu com a famosa regra de não sair com a mesma garota duas vezes na mesma semana, nem quatro vezes no mesmo mês? E quando você ia me contar?

– Respira. Eu ia te contar amanhã, no café da manhã. – Ele faz uma pausa antes de perguntar desconfiado. – Ainda está de pé, né?

A tradição de tomar café da manhã começou em um sábado quando ainda estávamos na faculdade. Eu estava pilhada, estudando para uma prova quando Logan invadiu meu quarto avisando que eu precisava relaxar. Caminhamos alguns quarteirões, eu ainda meio preocupada com as linhas que precisava ler e ele tentando me fazer rir, inventando piadas e tentando descobrir o que eu pediria do cardápio. Durante todos esses anos, caminhamos algumas quadras, compramos café no antigo Magnolia’s que agora se chama Carameldream também conhecido como melhor café da manhã da vida. Em todos esses anos, Logan esteve comigo em todos os momentos, quando o meu pai morreu, ele me segurou. Quando minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer meses depois, ele segurou minha mão. Quando tomei a difícil decisão de interne-lá, ele me ajudou com a escolha da clínica. Nas noites em que Dean precisou trabalhar duro para colocar o escritório do meu pai em ordem, Logan me fez companhia.

– G.? – ele me coloca de novo na conversa.

– Claro. – digo balançado a cabeça, tentando me livrar do desconforto. – Claro!

– Bolo de banana cremoso com sorvete de creme? – ele tenta adivinhar meu pedido.

– Acho que você vai ter que esperar até amanhã para descobrir. Amo você, Lo.

– Amo você, G.

Fico sentada no banco do motorista alguns instantes antes de dar partida. Depois de anos presenciando o desfile interminável de modelos, médicas, garotas alternativas, atletas e aquela vez que ele saiu com uma proctologista de cinquenta anos, Logan está se amarrando. E isso é sério! Estou feliz porque ele merece. Logan merece todo o amor do mundo, mas não posso ignorar o frio na minha barriga, não consigo me livrar da sensação esquisita de algo está fora do lugar. Encaro meu reflexo no retrovisor, minhas bochechas estão vermelhas, os olhos arregalados e pequenas gotas de suor povoam a minha testa. Dou partida no carro, deixando esses sentimentos para trás.

O apartamento de Dean está quieto quando entro, jogo meus pertences no sofá e as compras no balcão da cozinha e descubro que ele está em casa porque vejo suas chaves, carteira e celular sob o balcão. Talvez ele esteja tirando uma soneca. Abro a porta do quarto com cuidado, os lençóis estão bagunçados e ouço o barulho do chuveiro ligado. Bingo! Sento na beiradinha da cama, louca para libertar meus dedos da opressão das botas, quase reviro os olhos de prazer quando minha sola toca o chão gelado, amo ficar descalça. Prendo meu cabelo em um coque alto e vou até o banheiro, notando que a porta está só encostada, ouço um ruído baixinho e a abro um pouco.

– O que você está fazendo comigo? – a voz suave de uma mulher soa dentro do box.

A bile sobe na minha garganta, pela fresta da porta vejo uma calcinha na pia, calcinha essa que não me pertence. Preta e minúscula, o tipo de calcinha que eu nunca usei. Cubro a boca. Mais gemidos. Mais palavras. As palavras que ele usa comigo. Prendo a respiração, minhas mãos começam a tremer e eu me afasto da porta como se ela tivesse me eletrocutado. Olho para a bagunça na cama, a mesma cama em que fizemos amor várias vezes. Saio do quarto com medo de os lençóis criarem vida própria e me estrangularem.

Pego minhas pastas e o blazer, o anel no meu dedo grita, fazendo-me analisar a pedra preciosa.  Incrível como o significado de um objeto muda com apenas uma atitude. Tiro a aliança e a coloco em cima da mesinha de centro. Não quero ter que olhar pra ele de novo, não quero escutar uma explicação fajuta. Atordoada, bato a porta e opto pelas escadas porque se eu ficar parada no elevador tenho a sensação de que o prédio inteiro vai desabar na minha cabeça. Não paro nem quando chego ao carro, as mãos ainda trêmulas parecem ter vida própria quando dão partida, fazendo os pneus cantarem, sabendo que só tem um lugar para onde quero ir.

Bato na porta do Logan, sem nem saber como consegui chegar aqui. Não derramei uma lágrima, mas sinto um bolo queimando minha garganta me sufocando. Ele abre a porta e imagino que devo está péssima porque a cara que ele faz me despedaça.

– Giovana?

– Eu e o Dean nós… Ele tem… – vou falando rápido, sem conseguir completar os pensamentos, tudo de uma vez atropelando minha cabeça.

Ele me olha confuso franzindo o cenho.

– Pode ser a com manteiga, né? – uma loira chega abraçando Logan por trás e a expressão dela confirma que eu devo está um lixo, mesmo sem ter derramado uma lágrima.

Noto a aparência do dois. Ele com uma calça de moletom baixa, o V esculpido perigosamente perto de ser exposto, sem camisa, pois a mesma está sendo usada pela ruiva de pernas torneadas que o abraça por trás. Eu sou uma idiota.

– Ah desculpa, eu vou… – Ela diz sem graça apontando para cozinha antes de sumir.

– Desculpa, Lo. Eu não pensei, eu só… – Dou as costas para ele que continua com a expressão confusa e preocupada.

– G.? Giovana! – ele me chama.

– Eu e o Dean terminamos, tá tudo bem – reviro os olhos. – Bom, não está tudo bem, mas vai ficar depois que eu for pra casa e tomar um banho. Volta pra dentro, eu não queria te interromper.

Sigo para o carro, com ele ao meu encalço.

– Espera – ele pede, mas não dou ouvidos.

Dou partida no carro em busca do plano que acabei de dizer a ele.

Quando finalmente estaciono em casa, saio do carro e opto mais uma vez pelas escadas. Erro algumas vezes a chave na fechadura e praguejo sentindo o choro se espreitando. Algumas mechas do meu cabelo se soltaram e agora estão grudando no suor da minha nuca, me dando agonia. Tranco a porta nas minhas costas, respiro fundo e choro ali mesmo, sentada no chão, com as costas apoiadas na madeira. Levo os joelhos até o peito, tentando aliviar a pressão que eu sinto, a dor que se espalha. Meu choro me rasga, acaba comigo, mas também me cura, lava a minha alma.

Não sei quanto tempo fico ali, mas me levanto um pouco mais aliviada, livre da sensação de está sendo sufocada pelo meu próprio organismo. Vou até a cozinha, pego uma garrafa de vinho e bebo a primeira taça de uma vez, sirvo outra e dessa vez consigo frear meus pensamentos. Dean não vai me transformar nessa pessoa. Me obrigo a caminhar até o banheiro, deixo a taça pela metade na pia e entro no chuveiro. A água fria que eu tanto odeio me lavando, me permitindo chorar de novo.

Hoje eu vou chorar, mas amanhã tudo estará acabado, prometo a mim mesma.

Me dou ao trabalho de vestir uma calcinha e uma camiseta que o Logan largou aqui em casa meses atrás e nunca buscou. Encho a taça de vinho novamente e me sento no sofá com o controle da TV na mão, mas não me preocupo em apertar os botões, consigo pensar em nada que eu queira ver. Olho ao redor, para a casa escura e o silêncio e encontro conforto na solidão.

la tristesse durera toujours

Tatuei em meu braço quando perdi meu pai e agora faz mais sentido do que eu gostaria. A tristeza dura para sempre.

De cabelo molhado, nariz vermelho e olhos inchados, eu existo ali. Pego meu celular e mando uma mensagem para a Bea.

Eu: Oi. Eu e o Dean terminamos.

Bea: Para. O que aconteceu?

Eu: Ele tem outra.

Não tenho necessidade de florear com a Bea, as coisas são simples e cruas. Meu telefone começa a tocar. Ah minha amiga…

– Ei… O que está acontecendo? – pergunta deixando transparecer a aflição em sua voz.

– Eu não sei. Estou tão triste Bea.

Minha amiga chora comigo quando narro tudo o que aconteceu. Depois de alguns minutos, ela diz que foi até o mercado comprar sua própria garrada de vinho, e bebemos juntas a distância.

– Você precisa transar – ela diz no meio da terceira taça. –  Sexo é bom, faz você se sentir maravilhosa.

Acendo um cigarro e o próximo comentário que ela diz faz com que eu engasgue com a fumaça.

– Você precisa transar com o Logan.

– Que? – digo depois que a tosse cessa.

– Sério! Pensa comigo. Ele é lindo, vocês são amigos há anos, tem uma confiança bizarra um no outro e ele tem uma queda por você.

– Logan não tem uma queda por mim – digo me remexendo no sofá diante da ideia bizarra.

– Não seja estupida! É claro que tem, desde a faculdade ele é louco por você.

– Ele já confessou uma vez que se rolasse, ia ser só uma foda sem significado… – digo mais para mim mesma. – Além do mais eu nem saberia como transar com o Logan.

A lembrança de uma festa que nós fomos uns anos atrás me acerta com força. Eu acabei indo dormir na casa dele e ele levou uma garota junto. De madrugada eu me levantei para beber água e acidentalmente vi os dois na cozinha. Ele estava de costas para mim, eu vi as pernas da garota envoltas em sua bunda e ele a lambia, beijava e dizia as coisas mais sujas. Deus sabe que eu nunca fui uma aventureira na cama e Dean também não fazia muita questão, na maioria das vezes ele estava cansado demais.

– Meu bem…

– É uma péssima ideia. Tá maluca? Logan é meio que um irmão.

– Já te disse pra você parar de falar isso para as pessoas – ela gargalha.

A campainha toca, mas eu a ignoro. A pessoa insiste.  Logan insiste.

– Giovana? – sua voz soa séria e preocupada. – G, se você tiver ai fala alguma coisa. Eu to preocupado! Você não atende o celular. Por favor!

– Logan está aqui – sussurro.

– Uhhhhh… Pensa no que eu te falei – ela sussurra de volta me fazendo revirar os olhos. Ela é doida.

– Obrigada Bea.

– Eu amo você, Torres… Eu amo tanto você.

– Eu sei, docinho. Eu também te amo. A gente se fala amanhã, ok?

Caminho até a porta, mas hesito em abri-la.

– Ei Lo, to aqui. Desculpa por ter te deixado preocupado, tá tudo bem.

– Abre a porta – ele insiste.

– Vai pra casa. Eu to bem – reafirmo.

– Abre a porta, por favor. Eu preciso olhar pra você.

Ele não vai desistir e a preocupação em sua voz me desarma. Ciente de que estou vestindo apenas uma de suas camisetas velhas que mal chega a metade das minhas coxas e calcinha, decido deixá-lo esperando mais um pouco enquanto procuro uma legging para vestir. Duas garotas com o mesmo look no mesmo dia parece estranho para mim. Mais composta, abro a porta devagarinho e meus olhos se arregalam diante da visão: ele está parado na minha porta, sem camisa, pois a mesma está enrolada em sua mão. Há um vinco de preocupação entre as sobrancelhas e um hematoma na boca. A preocupação logo dá espaço para o alivio e ele se apressa em me abraçar forte.

– Logan? O que aconteceu? – pergunto alarmada.

– Você apareceu na minha casa chateada, falando um monte de coisas desconectas. Eu não sabia o que tinha acontecido, seu telefone estava ocupado, então fui tirar satisfação com o Dean. Não se preocupe, ele ficou pior.

– Você deu uma surra nele por ele ter me traído?

–  Eu sei, eu devia ter colocado minha cabeça no lugar e…

– E ele revidou? Que idiota! – resmungo.

Ele sorri e segura meu rosto entre as mãos, acariciando minha bochecha e olhando no fundo dos meus olhos. Desvio o olhar quando sinto as lágrimas aparecendo, me cegando por alguns instantes antes de cair.

– Eu não queria que você me visse assim – confesso fazendo seu peito vibrar com uma risada triste.

– Eu sinto muito, G.

– Eu não sabia que era possível derramar tantas lágrimas.

Ele nos guia para dentro do apartamento, fechando a porta com os pés porque ainda estamos abraçados.

– Desculpa a demora, eu tive que levar a Anna em casa e depois ir falar com o babaca. Mas agora estou aqui. – Ele me beija na testa e se afasta. – Gostei da camiseta.

Logan fuça meu armário e tira uma garrafa de tequila de lá. Sento no sofá, colocando uma almofada no meu colo, sentindo-me repentinamente constrangida e isso chama sua atenção.

– Que assistir alguma coisa? – ele pergunta se juntando a mim no sofá me entregando um shot.

– Só quero ficar quietinha, mas podemos assistir a qualquer coisa que você queira ou… Ir embora. O que você ta fazendo aqui, Logan? Você tinha compromisso.

– Quer conversar sobre o que aconteceu? – ele diz me ignorando.

– Não.

– Qual é? – ele resmunga com uma acusação implícita na voz me dizendo que a gente conta tudo um para o outro. Tenho vontade de jogar na cara dele que ele andou namorando por ai sem me contar nada, mas não é o que eu acabo fazendo.

– O que tem pra conversar? Meu noivo tava na cama com outra enquanto eu tentava conciliar meu trabalho e os preparativos para o casamento. É simples assim – respondo amargamente.

– Eu quero saber o que você ta sentindo.

Penso um pouco. Como estou me sentindo? Pela minhas feições acho que é óbvio o que estou sentido, mas acho que verbalizar, tirar o sentimento do meu organismo vai me fazer bem. Não preciso pensar muito para falar como estou me sentindo porque é a primeira palavra que surge na minha cabeça. Deixo minhas defesas caírem porque ele é Logan, meu melhor amigo.

– Humilhada. Eu acho que estou me sentindo humilhada e eu não quero me sentir assim, Lo! O que eu fiz de errado? O que faltou pra ele? Quando eu deixei de ser suficiente?

– Shhhh… Cala a boca. Cala. A. Boca. – ele diz colocando o indicador sob meus lábios. – O problema não é você… Dean é o tipo de cara que nunca vai acabar com a mulher perfeita porque você é demais pra ele e ele não consegue lidar com isso. Ele precisava provar de alguma forma que podia ser melhor   que você e infelizmente foi assim que aconteceu. Você é linda, Giovana. Você é inteligente e está construindo uma carreira. Isso é demais pra ele. Você não fez nada de errado, ele fez.

Me sinto vazia e patética, embora meu choro seja mais controlado agora. Ele me puxa para seu peito e beija o topo da minha cabeça, me aconchego em seu peito e ele brinca com meu cabelo. Odeio a Bea pelo o que eu vou dizer agora, a odeio por plantar essa semente na minha cabeça.

– Tem mais uma coisa. É meio idiota, mas é que eu percebi que tem um tempo que você… Bem, antes você ficava dando em cima de mim o tempo todo e eu seieu sei que seria só uma transa sem significado, é que eu to me perguntando se o problema realmente pode ser eu. Dois caras deixam de demonstrar interesse e… Não importa, eu só estou bêbada – digo me levantando porque até respirar é difícil agora.

– Não faz isso. – ele me censura. – Não pode me falar essas coisas e sair andando.  É isso o que você quer?

Não sei. Quero? Bea tem razão, eu sinto falta de me sentir desejada e Logan seria uma boa distração, eu só estou com o pé atrás porque ele é meu melhor amigo e eu corro o risco de perde-lo também e Deus sabe que eu não posso perder mais ninguém agora.

– Você quer transar comigo? – Ele diz segurando meus ombros, se assegurando de que estou ouvindo o que ele está dizendo. – Por que eu te garanto, significaria tudo. Você não tem noção de o quanto significaria.

Logan morde o lábio e passa a mão nos cabelos, andando de uma lado pro outro inquieto.

– Preciso saber se é isso que você quer porque eu vou te falar uma coisa agora: se é isso o que você precisa, eu estou disposto. Estou te dando uma saída aqui, uma pausa de cinco minutos, a gente nem precisa falar sobre isso amanhã, se for o que você quer… Mas é só uma pausa de cinco minutos, amanhã o problema vai continuar aqui.

Suas mãos acariciam o meu rosto, passeam pelos meus lábios, apertam a minha nuca, os olhos fixos na minha boca. Ele tem toda a razão, não posso fazer isso. Estou sendo carente.

– Desculpa. Me desculpa, eu…

– Shhh… Vamos só deitar, tudo bem?

Logan liga o som baixinho quando entramos no quarto, não consigo ouvir direito o que está tocando, mas provavelmente é alguma canção do Hozier.  Me aconchego nele, nossas roupas tem o mesmo cheiro porque ele sempre rouba meu amaciante, e assim me sentindo pesada pelo o álcool e pelo choro, adormeço rapidamente.

 

Pisco várias vezes até meus olhos conseguirem se ajustar a luz que entra pela janela, demoro alguns segundos para entender o que é o peso que sinto na barriga. É a mão do Logan que está espalmada sob minha pele nua, onde no decorrer da noite a camiseta deve ter subido, a deixando exposta. Minha pele bronzeada contrastando com a brancura da dele. Sua mão quente em conflito com a frieza da minha. A mão cheia de calos pesando na delicadeza do meu ventre. Me levanto com cuidado, deixando-a cair ao lado do seu corpo.

Vou até o banheiro, tomo banho e tento desembaraçar os nós que se formaram no meu cabelo. Troco de roupa ainda no banheiro e quando saio, Logan está na mesma posição que eu o deixei. Ele está tão diferente da foto que tenho na minha escrivaninha. Uma foto que tiramos em Barcelona dois anos atrás quando fizemos um mochilão na Europa.

Naquela época, ele não usava barba, agora ostenta um emaranhado de pelos ruivos no rosto e por incrível que pareça, faz o maior sucesso. Eu gosto e desgosto na mesma medida. Ela esconde a boca dele, uma boca linda! São os lábios mais bonitos que já vi, claro que nunca falei pra ele… Eu os notei quando estava aprendendo aquarela e o desenhei para treinar. Fiquei horas tentando reproduzi-los mas nunca consegui. Eu os já tinha notado antes. Uma vez estávamos deitados na varanda do velho chalé onde vivi minha infância quando ele inventou um jogo.

– Você precisa dizer a sua palavra favorita, mas não pode pensar sobre isso. Tem que ser a primeira palavra que vier na sua mente.

– KINKY!

A palavra saiu da minha boca na maior altura e ele gargalhou quando viu minha expressão de espanto. Claro que essa não é minha palavra favorita, eu nem falo isso!  Mas estava bêbada e passando repetidamente pela minha cabeça a cena que havia presenciado na noite anterior quando o peguei na cozinha com a garota da festa. Ele parecia ter saído diretamente de um filme pornô bem brega, mas mesmo assim foi sensual pra caramba.

– Você sabe que essa não é minha palavra favorita, Sherlock. Qual é a sua?

– Fucker – ele respondeu prontamente.

Por algum motivo bizarro (e kinky) eu prestei muita atenção em sua boca quando ele pronunciou a palavra e lembro de ter achado muito fofo o formato redondo que seus lábios formaram quando ele a disse.

Com essa lembrança em mente, passo a gostar um pouco mais da barba por esconder essa parte dele. As outras garotas podem se contentar com o seu sorriso que é quase tão perfeito quanto. Só eu tive acesso a essa beleza, agora a outra menina também vai ter. É estranho está aqui pensando nos lábios de Logan, e o pior, estar sentindo ciúme deles. Eu quero matar Beatrice por causa desses pensamentos insanos. Somos amigos há anos, não é como se eu tivesse ficado imune a sua beleza, é que eu me acostumei a não admirar.  O braço tatuado está repousado em cima da sua cabeça, todas as tatuagens em tema marítimo old school tem um significado especial pra ele e até um pedaço de mim está ali. Será que ele vai contar isso para a garota?

Balanço a cabeça porque eu não deveria está pensando nessas coisas. Ele está feliz e tudo por causa dela. Saio de mansinho do quarto e procuro minhas chaves na sala, as encontro do lado do meu celular na mesinha de centro e me pergunto se é uma boa ideia ligá-lo. O que eu vou encontrar? Chamadas perdidas, mensagens tentando adivinhar como o terreno está? Definitivamente, não estou pronta para isso.

 

– Por que você é tão disposta de manhã? – Logan pergunta no momento em que eu fecho a porta assim que chego do Pilates. – E por que estou me sentindo um merda?

Vou até a cozinha, tomo um copo de água e respondo sua pergunta.

– Não sei explicar. Desde criança sou matutina, amo acordar cedo, ver o sol nascer… O cheiro da manhã é diferente.

Pego uma sacola no puxa saco e vou até a mesa de centro em frente onde ele está sentado no sofá e começo a recolher as garrafas de cerveja que estão espalhadas por ali e aproveito para responder a segunda pergunta.

– Você não está se sentindo um merda. Você é um merda – tiro sarro.

– Estou começando a achar que esse tal de Pilates realmente funciona. Sua bunda tá sensacional. – Me viro para ele que está curtindo a minha paisagem na maior cara de pau com um sorriso brincalhão e talvez um pouquinho safado. Ele rouba um dos meus cigarros e acende.

– Cala a boca se você quiser tomar café da manhã usando seus dentes. E para de sorrir desse jeito, é esquisito! – minto, porque é maravilhoso.

Depois de recolher toda a bagunça da noite anterior, obrigo Logan a lavar minha louça enquanto troco de roupa.

– Você ainda está reclamando? – digo quando volto à cozinha e o encontro resmungando. – Deve ser fome, vamos embora.

– Então quer dizer que você vai pedir hoje um cheesecake de frutas vermelhas? – ele tenta adivinhar.

– Não.

– Cookie de gotas de chocolate com sorvete?

– Eu sempre peço cookie, é minha sobremesa.

– Não com sorvete – ele pontua.

– Não, não vou pedir cookie.

– Brownie de laranja com nozes? Mil folhas com doce de leite, creme e cereja? – ele continua tentando.

– Meu Deus. Você está péssimo hoje!

– Nah… Só estou te enrolando porque ia ser muito fácil se eu falasse que você vai comer a guirlanda de frutas secas com caramelo, doce de leite e açúcar queimado de primeira.

– Logan? Você é um gênio!

A faixada rosa claro com marrom da Carameldream nos acolhe assim que viramos a esquina. Logan, abre a porta pra mim, fazendo um gesto antiquado para que eu entre primeiro. Escolhemos a mesa encostada na janela porque as mesas da janela são as únicas que tem jarrinhos de flores e eu amo, além do mais é onde eu costumava sentar quando vinha estudar aqui.

– Olha se não é minha dupla favorita! – Maggie nos cumprimenta.

– Ei, Margot – Logan a chama carinhosamente. – Cadê a Lola?

– Foi passar o dia com minha irmã e meus sobrinhos – ela responde toda coruja.

– E você não deveria está sentada? Já está de oito meses. – pergunto.

Maggie está grávida de novo e parece ainda mais radiante do que quando descobriu que Lola ia chegar. Logan e eu lhe compramos sapatinhos e entregamos da última vez que estivemos aqui.

– É. Mas as vezes preciso andar um pouquinho – ela justifica.

– Não se esforce muito – Logan pede.

– O que vocês vão querer hoje?

– Margot, nós vamos querer uma fatia da guirlanda de frutas secas – Logan diz dando um sorriso convencido – e…

É a minha vez de descobrir o pedido dele.

– Um cheesecake de pecã com nozes? – arrisco.

– Errou! Um waffle de maçã e canela.

Margarete anota nossos pedidos e com um sorriso vai para a cozinha. Puxo um guardanapo e começo a brincar com as pontinhas.

– Como você está hoje? – ele pergunta.

Penso um pouco antes de responder. Meu celular continua desligado e tenho a sensação de ter estado aérea desde a hora que acordei, não pensei muito no assunto porque parece tão surreal. É uma conta difícil de se fazer, ontem estava tudo certo, hoje o dia amanheceu diferente,

– Eu disse a mim mesma que eu estava liberada para extravasar ontem, para que pudesse ficar tudo bem hoje. Então aqui estamos nós.

– Você não precisa se esconder de mim.

– Não estou. Juro… Eu só não estou pronta pra nada ainda, Lo.

Maggie volta com nossos pedidos e no momento em que provo a guirlanda, solto um gemido.

– Ai meu Deus, Logan! Isso é incrível – digo suspirando

– OK. Minhas calças estão apertadas.

Gemo de novo.

– Talvez tenha uma mancha nela.Caramba, G. Nenhuma garota gemeu pra mim desse jeito. To meio ofendido.

– Isso porque você não tem esse sabor.

– Não? Olha, a gente pode pedir o deposito pra Margot, ai você pode comprovar…

– Cala a boca e prova isso – digo enfiando um garfo em sua boca. Ele geme e é o barulho mais incrível do planeta.

– Você ta gemendo pra um pedaço de torta, Lo! – me divirto.

Terminamos de comer minha torta entre gemidos e risadas e começamos atacar seu waffle que não é tão bom quanto a minha torta, mas nada vai ser melhor que isso e de repente é tudo o que eu preciso. Uma surpresa agradável.

– Você ia me contar coisas hoje no café da manhã, lembra? Qual é o nome dela mesmo? – pergunto tentando soar interessada, mas não interessada demais.

– Não precisamos falar sobre isso agora. Não quero que…

– Não! Se tem uma coisa que precisamos falar é sobre isso. Desembucha.

– Anna. O nome dela é Anna. – ele cede e desvia o olhar para buscar mais palavras, mas sua empolgação é palpável. –  Ela é um  pouco mais nova que eu, bonita, muito parecida com você nesse quesito. – acrescenta me fazendo corar.

Termino meu café e sorrio ao ver seu encantamento. Ele me olha meio encabulado, como se só agora tivesse parado para entender o que acabou de me falar.

– Por que não me contou antes? – pergunto.

– Não sei, acho que estava esperando. Anna estava bem resistente no começo, você sabe… por causa da minha fama de galinha e tudo mais.

– Argh! Odeio quando se refere a você mesmo desse jeito.

– Mas é verdade, não a julgo por ficar reservada.

– Tem tanta coisa sobre você além disso, Lo. Você é gentil, carinhoso e…

Não consigo parar de pensar em você de uma maneira inapropriada.

– … gentil. Você é honesto e…

Não consigo tirar da cabeça quando te vi semi nu anos atrás.

– Você é meu melhor amigo – concluo.

Ela segura minhas mãos por cima da mesa e as observa entrelaçadas.

– Sabe, por um tempo achei que não fosse me apaixonar nunca mais, por causa da Heather e tudo mais – ele justifica. – Depois comecei a achar que você era a pessoa que ia me tirar dessa certeza. Na verdade, você é a pessoa que me tira dessa certeza todos os dias… – ele confessa fazendo meu coração acelerar. – Quando você me disse que era tudo bem eu me apaixonar de novo… Acho que é isso o que estou fazendo agora.

Nossos olhos se encontram e eu sinto meu rosto queimar.

– Enfim… – Ele continua. – Você tem que conhecê-la.

Sorrio pra ele e é uma sensação estranha. Porque estou genuinamente feliz mas meu cérebro não para de alertar que tem alguma coisa fora do lugar.

– Estou sentindo falta das suas covinhas – ele diz soltando as minhas mãos de repente, me fuzilando com seu olhar.

– A vida não tem dado motivos pra elas aparecerem por agora – murmuro.

– Você não vai ser triste para sempre, G.

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