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ATENÇÃO: Estou repostando o livro Vinho de Cereja com algumas alterações (inclusive no título), não deixe de dar sua opinião nos comentários!

Como Você Se Sentiria?

Por Luma Nunes

Capítulo Um
O Grande Começo

O céu cinza é a comprovação final de que as férias acabaram. Eu costumava amar quando o dia amanhecia fechado, meu pai me mandava calçar botas e andávamos quilômetros e mais quilômetros, ele fotografando pássaros e eu olhando tudo bem de pertinho. Quando nos mudamos para a cidade, há dois anos, desenvolvi um amor maior pelos dias ensolarados, talvez porque eles sejam raros por aqui. Dias nublados no campo são para contemplação, na cidade só servem para dar preguiça de se levantar antes de enfrentar o dia.

Em Green Park o clima não segue as estações como no resto dos Estados Unidos, essa cidade espremida entre New York City e Connecticut é esquecida até mesmo pelos meteorologistas. Juro que na previsão do jornal de ontem à noite, a garota do tempo prometeu um dia ensolarado para a região. Bem, não é a primeira vez que ela erra feio.

Me afasto da janela e vou até o banheiro onde deixo minha calça de moletom embolada no canto e me espremo em um jeans justo demais.  Na pia, o presente que minha mãe me deu de natal continua intocado. Suspiro e abro a bolsinha holográfica cheia com os últimos lançamentos de uma famosa marca de maquiagens. Leio alguns rótulos antes de jogar tudo de volta na bolsinha. Minha mãe não me conhece, mas age como se conhecesse, ela me presenteia com tudo o que me sugere comprar e eu nego. Ela só está tentando se conectar comigo, imagino que deve ser horrível ter uma única filha que não corresponde com suas expectativas. Resgato o rímel da bolsinha e o posiciono em meus cílios, lacrimejando bastante no processo, pois lembro que no final de semana fomos ao cinema por sugestão minha e ela não reclamou de nada, nem quando escolhi um cult francês – que eu sei que ela acabou não entendendo nada, nem quando jantamos em uma hamburgueria, quando ela preferiria uma salada.

A relação com minha mãe é tranquila, mas cheia de concessões, tentamos ao máximo ter coisas em comum, mas parece que quanto mais tentamos, mas estranho fica e o fato de eu ser a cópia fiel do meu pai, não ajuda em nada.

Enrolo meu cachecol no pescoço e desço as escadas para encontrar os dois na cozinha.

– Bom dia! Como estou? – brinco fazendo uma pose exagerada em frente à mesa.

– Espetacular, Giovana! – meu pai diz baixando o jornal com um sorriso orgulhoso.

Minha mãe coloca a cesta de pães na mesa e me beija em ambas as bochechas.

– Que tal um batom? – sugere.

– Rímel – explico apontando meus olhos.

Ela faz uma careta, mas tenho quase certeza de que pensa que é um sorriso.

– Ei pai, mandei uma mensagem para o Joe e ele disse que posso buscar a moto hoje à tarde. Pode pegar pra mim?

– Pelo amor de Deus, Joseph – minha mãe reclama enquanto serve um copo de suco de laranja pra mim.

Meu pai lhe dá um olhar reprovador antes de se virar para mim, concordando.

– Eu posso ter pelo menos a esperança de que o Matt vem buscá-la hoje ou…

O som estridente de uma buzina corta a fala da minha mãe.

– É a Bea – digo aliviada por minha amiga me poupar do que deveria ser uma longa e repetitiva conversa. – Vejo vocês mais tarde, tá?

Corro até a porta, mas sou parada pelo meu pai antes de tocar na maçaneta.

– Baby girl, eu vou buscar sua moto, mas quero que me prometa que será cuidadosa. Lori está uma fera comigo e provavelmente não vamos dividir a cama hoje.

– Uooou. Muita informação – digo olhando para seu rosto jovial. – E é muito bom saber que você genuinamente se preocupa comigo e que isso não tem nada a ver como você… e a mamãe… fazendo… coisas?

Ele gargalha.

– É claro que me importo, afinal de contas você é a minha filha favorita.

Reviro os olhos.

– Eu sou filha única.

Ele dá os ombros.

– É a minha melhor amiga também.

– Pai… – vou até ele e o abraço. – Eu também te amo e prometo que serei cuidadosa.

Meu pai estuda meu rosto. Nossa semelhança vai além da personalidade, temos os mesmos olhos castanhos e os cabelos deles hoje estão cinzas, mas já foram castanhos como os meus.

– Dá um tempo pra sua mãe, OK? Ainda é difícil pra ela ver a filhinha saindo do ninho.

– Eu tenho dezoito anos, pai e já faz dois anos que estamos na cidade. Eu não sou mais aquela garotinha que foi educada em casa.

Bea buzina de novo.

– Preciso ir, alguém está apressada hoje – digo finalmente virando a maçaneta. – Pai? La cocina de tu nona… É o restaurante favorito da mamãe. Ela perdoaria qualquer coisa – abro um sorriso e dou uma piscadinha antes de sair de casa.

Atravesso o jardim enrolando ainda mais o cachecol o pescoço e franzindo o nariz reprovando esse maldito tempo.

– Obrigada Deus, pelo aquecedor do seu carro – digo assim que bato a porta – e bom dia!

– Ei! – Bea me cumprimenta arrumando o retrovisor que ela havia ajustado para passar batom.

– O que há de errado com esse tempo? Aposto que minhas bochechas estão vermelhas – continuo resmungando.

– Uau, alguém está de mau humor! Sim, suas bochechas estão vermelhas de um jeito muito fofo e combinável com suas sardas – ela diz dando partida no carro, invadindo um pouco a calçada ao sair. – Deus, devia ser proibido ser tão adorável assim. Ei, olha só isso – ela diz se inclinando para pegar um papel amassado debaixo do banco.

Tento alisá-lo um pouco, mas continua tão cheio de vincos quanto antes. Leio o anúncio de um duplex, próximo ao campus com dois quartos e preço acessível.

Bea é minha melhor amiga da vida, ela morava há alguns quilômetros do chalé dos meus pais e desde pequenas falávamos que ela ia ser cantora e eu médica e que moraríamos na mesma casa com nossos maridos gêmeos.

Alguns desses planos não vão se concretizar, ela estuda jornalismo e eu publicidade e ainda não encontramos gêmeos que nos queiram – exceto Kevin e Nick quanto tínhamos treze anos e descobrimos que namorar gêmeos não era uma ideia tão boa assim. Mas morar juntas? Isso com certeza podemos fazer.

– Parece bom – digo enfiando o papel dentro da mochila.

– Ótimo. Combinei de ir dar uma olhada depois da aula.

Antes de seguir para o campus, Bea estaciona no Café Magnólia, desço do carro e no momento em que passo pelas portas de vidro, sinto o calor agradável que vem de dentro. Costumo vir aqui às segundas, quartas e sextas para estudar porque o calor, o cheiro e as conversas baixinhas ao redor fazem maravilhas para a minha concentração.

O lugar foi reformado a pouco tempo, de modo que o cheiro de tinta fresca se mistura ao aroma de café e pão assado. Verifico o relógio, estranhando o movimento sossegado e vejo que estou bem adiantada.

– Ei Romeo! – cumprimento meu atendente favorito que por acaso é o proprietário.

– Giovana! – ele diz limpando as mãos no avental. – Preciso dizer que aquele lugar ali – diz apontando para a mesinha do canto próximo a janela onde costumo me sentar. – Fica incrivelmente sem graça sem você sentada lá.

– Awn, senti saudade de vocês também. Cadê a Maggie?

Seu rosto se ilumina apenas com a menção do nome da namorada.

– Está folga. Grande dia hoje – ele responde animado.

Ergo a sobrancelha em busca de uma resposta.

– Estamos grávidos!

– Ai meu Deus, Romeo! – trocamos um abraço desajeitado por cima do balcão. – Parabéns!

Desde que entrei pela primeira vez no café, seis meses atrás, Romeo e Maggie tem sido como uma segunda família pra mim. Eles estavam tentando engravidar há dois anos sem sucesso e agora Romeo parece flutuar de felicidade.

– É incrível, não é? Eu vou ser pai! – ele diz com um sorriso tão grande que deve doer. – Mas vamos ao pedido, isso aqui está prestes a explodir. Dois expressos com caramelo e creme em dobro?

Ele mal fecha a boca e um grupo de estudantes entra sedentos por cafeína para começar o semestre.

– Isso mesmo! Você vai ser o pai mais sexy do mundo falando essas coisas – brinco.

– Não é? – ele diz de costas para mim, preparando meu pedido.

Romeu coloca os copos na bancada enquanto agilizo o pagamento e se adianta para atender o resto da demanda.

Atravesso o estacionamento, o vento gelado me causando arrepios e me fazendo andar mais rápido do que seria humanamente possível. Entrego o copo de Bea e seguro o meu com as duas mãos na tentativa de aquecê-las

– Olha pra mim – Bea pede. – Seu rímel borrou.

Porcaria.

– Sem problemas, arrumo no banheiro do campus.

Minutos depois, ela estaciona de frente ao prédio de direito, isso significa que teremos que andar um pouco para chegar ao prédio de comunicações. Conforme atravessamos o bloco, passamos por grupos e mais grupos de estudantes animados e falantes.

– Isso é ridículo – Bea reclama. – De onde saíram todos esses pedaços de mau caminho? Nossa turma de bichos parecia ter saído de um circo e agora isso?

Passamos pelo corredor cheio de calouros, mas não olho para nenhum deles em especifico.

– Você falou com o Matt nas férias? – ela questiona.

– Esse assunto está proibido. Minha mãe já tentou me encurralar mais cedo, é demais pra uma manhã só.

– Ok. Não está mais aqui quem falou.

– Preciso usar o banheiro – digo me dirigindo à porta à esquerda.

Me olho no espelho encardido e constato que pareço um panda, o rímel borrou de verdade. Tento arrumar o estrago com papel higiênico, mas é ridículo, só piora. Lavo o rosto e pego o rímel para tentar reaplicar, mas porque faria isso? Desisto da ideia, abro a porta e antes de sair ouço a voz do Matt.

– Ela não disse nada?

– Não e não faça isso, não vou entrar no meio de vocês. Se você quiser saber, conversa com ela. Só dá um tempo.  – Bea aconselha.

Balanço a cabeça, não posso me esconder dele pra sempre. Saio do banheiro pronta para encará-lo, mas esbarro em um cara ruivo e alto. Ele me segura pelos ombros me estabilizando.

– Cuidado, Houston – sua voz é rouca, pretensiosa e arrogante, ele é alto pra caramba e tem grandes olhos azuis.

– Desculpa! Eu… eu – franzo o cenho confusa. – Você me chamou de Houston?

O ruivo abre um sorriso enorme – nossa senhora – e liberta meus ombros de seu aperto. Aproveito para fazer um check up total e concluo que ele derrubará fácil muitas calcinhas por aqui, mas não a minha, decido nesse instante.

– É só uma brincadeira. Logan Hunt – ele se apresenta estendendo a mão.

Logan Hunt é o estereótipo perfeito. Noto quando um cara passa por ele dando-lhe um tapinha nas costas e o chamando pelo sobrenome. Atletas – eles amam se chamar pelo sobrenome e se eu estiver no caminho certo, ele não é o mais inteligente da classe, a beleza deve compensar isso.

– Bom, prazer em te conhecer, Logan Hunt – digo dando as costas para ele e indo em direção à Bea e Matt que estão olhando pra mim.

– E você éééé… – ele diz estendendo a frase, me fazendo olhar por cima do ombro e sorrir.

– É melhor começar olhar por onde anda, Dallas.

Volto a olhar para meus amigos e ouço Matt dizer frustrado, antes de seguir para o lado oposto ao meu:

-Dar um tempo pra ela, uhn?

– Matt! – o chamo, mas sou ignorada. – Ele me odeia – comento com Bea.

– Nah, Ele deve tá indo para o carro chorar ouvindo Coldplay – Bea consola.

– Ele precisa entender…

– …que vocês se conhecem desde os oitos anos de idade e que desde sempre ele foi apaixonando por você, mas a reciproca nunca foi verdadeira?

– Cala a boca. Eu amo Matt…

– Por favor, não diga como um irmão!

– Você é péssima, Bea – gargalho.

– Mas e ai, quem é o gato? – ela diz olhando descaradamente para a bunda de Logan que já está no fim do corredor.

– Hunt – respondo ironicamente.

– Qual é o problema?

– Problema nenhum… Olha só para esse cara, não podemos nem ser vistos juntos, as pessoas vão achar que ele que me sequestrar – digo pontuando a nossa diferença de porte físico.

– Olha de novo, porque obviamente você olhou errado e me escuta com atenção: esse espécime ruivo é o tipo de qualquer garota… – ela cerra os olhos enquanto me observa e morde as bochechas antes de continuar. – Aaaah, mas você não é qualquer garota… Você é a garota que gosta do cara, mas que nunca vai chegar nele, você é a garota que gosta do Dea…

Tapo sua boca o mais rápido possível.

– Cala a boca! Olha só, você achou o Logan atraente e eu acho incrível! Isso significa que você pode chutar o Oliver e ter lindos bebês ruivos com o espécime ruivo. Me deixa fora disso, ta bom?

– Tudo bem, estressadinha. Mas sei aonde você quer chegar, não tenta virar essa historia pra mim.

– O que você vê no Oliver, O Maior Cretino Do Universo?

– Eu já falei, esquece isso. Ele é meio idiota, mas OK… É só sexo.

– Não existe isso de só sexo. Sexo é intimidade.

– Pra você pode ser que sim, mas pra mim íntimo mesmo é beijar… Mas não vamos falar sobre isso. Vamos falar sobre o Dean. Sério, porque você ainda não chegou nele?

– Ele nem sabe que eu existo! – dou minha resposta padrão pela milésima vez irritada.

– Desde quando uma pessoa elogia as covinhas de alguém que ela nem sabe a existência?

– Touché.

 

Bea está falando do episódio que eu costumo me referir como o incidente da covinha. O dia em que Dean Styles – o deus grego, trocou 12 palavras comigo. Foi em uma quarta-feira ensolarada, eu estava esperando meu pai para almoçar, ele tinha sido chamado para uma reunião de emergência e eu estava sentada em sua cadeira jogando paciência quando Dean apareceu na sala, estudando vários documentos.

– Sr. Hawkings, surgiu um fator novo nesse processo, será que… – ele desgrudou o olhar das folhas e o grudou em mim. Sua barba por fazer balançou minhas pernas mesmo naquela distancia e ele sorriu, um sorriso de covinhas! Eu ia entrar em combustão ali mesmo.

–  Você [1] não [2] é [3] o [4] sr. [5] Hawkings [6]. Onde [7] está [8] o [9] sr. [10] Hawkings, [11] covinhas? [12]

Doze palavras e um sorriso. Ele notou as minhas covinhas! Ele notou as minhas covinhas porque eu estou sorrindo, mas porque diabos eu estou sorrindo? Eu estava sorrindo, olhando descaradamente para sua boca. Ele deve achar que eu sou louca.

– Ele… Ele… Está. Uau, está quente aqui, né?

– Você está bem? – ouço ele dizer.

Corto essa memória da minha cabeça porque eu não quero nem lembrar do que aconteceu depois disso.

 

No intervalo, saímos apressadas da sala porque Bea estava entrando em pânico com a aula de História da Arte. Vamos até a cantina, onde descobrimos que todas as atléticas se reuniriam para dar boas vindas aos calouros no chalé da cachoeira. Ninguém sabe ao certo de quem é esse chalé, boatos dizem que é de um cara que se formou anos atrás, mas no final isso não importa, é lá que rola as maiores festas da faculdade.

– Olá meninas! – Nossa amiga Carol diz se espremendo entre eu e Bea na fila. Como está sendo o primeiro dia de vocês? O meu está sendo fabuloso – só que não. Isso ai é um brownie? Argh, pelo menos tem um carinha muito gato pegando Ética e Legislação comigo.

Bea e eu trocamos um olhar e reprimimos o sorriso. Essa é a Carol, sempre falando sem parar e cumprimentando todas as pessoas possíveis. Largo minha bandeja de volta no lugar.

– Não estou com fome e preciso ir na biblioteca pegar uns livros – anuncio dando uma última olhada no cookie antes de perceber que minhas amigas não estão olhando pra mim, elas estão olhando por cima do meu ombro e eu resolvo descobrir o que há de tão interessante atrás de mim. BANG!

– Você deixou isso cair mais cedo – Logan diz entregando um rímel igualzinho o que deveria estar na minha bolsa.

Ele está perto demais, de modo que eu preciso levantar o queixo para ver seu rosto e eu não gosto disso.

– Ah… Deve ter caído da minha bolsa. Obrigada.

– Não por isso. – Ele diz enfiando as mãos no bolso e dando mais um daqueles sorrisos idiotas. – E esqueceu de me dizer seu nome também.

Sorrio com seu atrevimento. Garoto perigoso.

– Ei, você é o Logan, certo? – Carol se intromete. – Está sabendo que vai rolar o encontro das atléticas hoje no chalé? Vai ser bem legal.

– Você vai? – ele se vira pra mim, ignorando-a.

– Ela estará lá – Bea confirma.

 

Ao chegar em casa, encontro a moto parada na frente da garagem com um bilhete no retrovisor.

“A dica funcionou, não nos espere acordada (para o seu próprio bem). Papai.”

Corro em casa só para pegar o meu capacete e monto minha Harley querendo sentir o vento acariciar a minha pele e esvaziar minha mente como sempre acontece quando dou partida nessa belezinha. Piloto quilômetros pela rodovia sem ter ao certo aonde ir. Quando estou na moto, me sinto confortável em minha própria pele e nada mais importa. Piloto até perceber que preciso voltar se quiser chegar na festa na hora combinada, por isso guio direto para o chalé.

Estaciono ao lado de onde Bea acabou de parar seu carro. Ela guarda meu capacete no porta-malas e enquanto me livro da jaqueta Carol se aproxima com uma garrafa de cerveja na mão.

– Ei, olha só as atrasadas – ela comenta.

– Perdemos algo? – Bea questiona.

– Ainda não… Ninguém bêbado o suficiente. – ela diz verdadeiramente frustrada. – Mas estava ansiosa pela chegada de vocês pois temos um assunto importante para tratar: Logan Hunt. Sabia que ele mora sozinho naquela casa antiga perto da rodovia? Pois é… Ele é leonino, o que pode ser um problema e sua cor favorita é cinza, estranho, né?

– Ok. Você precisa respirar agora mesmo – Bea implica e Carol revira os olhos.

– Hum, Giovana? Matt perguntou por você e eu falei pra ele te ligar de uma vez e acabar logo com isso e ele respondeu que você terminou com ele, então…

– Anotado, Caroline.

Entramos as três no chalé, o som do violão logo chama a minha atenção e vejo um grupo de pessoas reunidas em volta de uma mesinha de centro tomada por garrafas de todos os tipos de bebida. Bea passa por mim se apressando para sentar no colo de Oliver. Argh! Quando isso vai acabar?

Ignoro a turma e vou atrás de uma cerveja, que encontro em uma caixa de isopor na copa. De onde estou ainda tenho uma visão clara do pessoal. Logan dedilha sem muito interesse as cordas do violão, Carol está sentada ao seu lado o devorando com os olhos e tagarelando, Bea está sentada no colo de Oliver que conversa com Matt, que por sua vez faz um esforço enorme para desviar os olhos de mim no momento certo, mas falha. E temos Dean… falando alguma coisa aparentemente muito engraçada no ouvido de Melissa, adicionando um gosto amargo às borboleta que estavam dançando na minha barriga.

– Ei, olha só quem chegou! – Logan diz alto chamando atenção de todo mundo.

– Como vai, Logan? – pergunto.

– Estou ótimo, Torres. – ele diz meu sobrenome enfaticamente com um sorrisinho sacana. – Isso mesmo. Eu sei seu nome e sabe o que eu também sei?

– Estou ansiosa.

– Que sua mãe é brasileira. Está correto?

– Corretíssimo – respondo.

Minha mãe é de Minas Gerais e conheceu meu pai no banco em que trabalhava, um evento no qual ele ficou impressionadíssimo com sua fluência. Eu nasci no Brasil, mas vim morar nos Estados Unidos com oito meses de vida e estive de volta no meu país de origem apenas quatro vezes.

– Uau. Você fala português? – ele pergunta.

– Um pouco -admito .

– O meu pai é brasileiro. – Logan insinua. – Parece que temos algumas coisas em comum, mas não importa. Chegou na hora certa, tenho uma música pra você – ele brinca comigo e todo mundo na roda fica atento. Meu rosto fica bem vermelho quando ele começa dando leves batidinhas no violão, um misto de vergonha e irritação.

Eu quis te conhecer mas tenho que aceitar / Caberá ao nosso amor o eterno ou não dá / Pode ser cruel a eternidade / Eu ando em frente por sentir vontade

Eu não conheço a música, mas seu sotaque carregado é uma gracinha. Aproveitando que toda a atenção está voltada pra mim, Carol dá um jeito de piorar tudo.

– Ei Dean, conhece a Giovana? Você trabalhou com o pai dela nas férias.

Eu baixo a cabeça e mordo o lábio porque ela só pode estar de sacanagem com a minha cara. Logan continua cantando indiferente a situação e eu arrisco um olhar para o Matt que está se levantando da roda.

– Na verdade, sim – Ele responde sorrindo. – Você está bem?

Ótimo. Ele me conhece bastante considerando que depois do incidente da covinha eu passei um bom tempo em seus braços desmaiada. Crio coragem de levantar a cabeça e dizer um “oi” sem graça antes de lançar um olhar irritado para Carol que não percebe porque está devorando Logan com os olhos. Com Carol o jogo nunca é limpo. Quando comecei namorar o Matt, flagrei uma conversa dela com a Bea onde ela dizia que não conseguia entender o porquê de as coisas virem tão fáceis pra mim, e ela que se esforça tanto não recebe a mesma atenção. Desde então nossa amizade entrou em declínio e ela não faz nem ideia.

Logan termina a canção e eu o aplaudo timidamente. O instrumento vai passando de mão em mão e ele me encontra no balcão.

– Gostou da música, Giovana? – sorrio com a ênfase que ele continua dando ao meu nome.

– Tava demorando… – ironizo. – A Carol foi ao banheiro?

É a única explicação pra ele estar ao meu lado sozinho, porque ela não desgruda.

– Ahhh – o sorriso dele é lindo e eu odeio pontuar isso toda vez que ele aparece, mas é inevitável. – Ela é sempre assim… efusiva?

– Nah… Você é carne fresca, logo se acostuma.

– E você? Vai continuar resistindo ao meu charme ou o que?

– Awwn. Vou.

– Nem vai tentar me conhecer? – ele choraminga me fazendo cair na risada.

– Exatamente… Eu não quero conhecer ninguém agora.

– Mas quer conhecer o Dean – ele insinua.

Lindo, americano, talvez atleta, não muito inteligente, com certeza. E vamos acrescentar observador a essa lista.

– E você está dificultando isso pra mim… – comento.

– Tudo bem. Sou homem o suficiente pra reconhecer que levei um fora.

– Nah… Você supera. A Carol…

– Por favor, não faz ficar mais humilhante – ele diz brincalhão. – Acho que vou voltar pra lá, antes que eu perca minhas bolas.

Quando ele começa a voltar para a turma, todos estão se levantando.

– Estamos indo pra perto cachoeira, lá é bem bonito a noite – Carol fala com ele.

E vamos todos juntos até lá. Os rapazes começam a acender uma fogueira e quando não dá certo, Bea reclama.

– Estou congelando aqui.

– Nesse caso, – Logan diz deixando uma canção pela metade. – Eu vou ajudar o Oliver a ser um cavalheiro. Tem um cobertor na minha mochila, pega lá e ajuda a aquecer a moça.

Oliver levanta resmungando. Escroto. Logan volta a dedilhar a música do Bon Jovi, mas é interrompido de novo.

– Olha só! Nosso pequeno Logan tem um segredo! – Oliver diz mostrando uma foto que estava na mochila para a roda.

– Ei. Não mexe nisso! – Logan diz colocando o violão de lado e se levantando abruptamente.

– Que gata! Ela sabe que você arrasta asa aqui na faculdade? – Oliver provoca deixando Logan vermelho, com os punhos cerrados ao lado do corpo.

– Coloca onde você achou agora – Logan manda.

– Oliver… – alerto.

Mas é tarde demais. Logan coloca o braço no pescoço de Oliver, o pressionando contra uma arvore. Tudo é muito rápido, Bea começa a gritar, pedindo para Logan parar, o rosto do Oliver está vermelho e ele parece apavorado, os outros caras tentam separar os dois, enquanto Logan respira pesado e o encara.

– Foi mal, cara – Oliver se desculpa com a voz abafada.

– Nunca. Mais. Chegue. Perto. De Mim.

Com o recado dado, ele o solta, coloca a mochila nos ombros e sai pisando duro, deixando todos com cara de espanto. Não consegui ver a foto da garota, mas pela reação de Logan, deu pra notar que ela era importante. Todo mundo corre pra saber se o Oliver está bem, mas ninguém parece pensar que ele ultrapassou um limite, que  invadiu a privacidade do Logan e que Logan tinha todo o direito do mundo de ter reagido aquilo. Oliver está dramatizando as coisas e eu não quero fazer parte desse teatro.  Caminho um pouco pelas pedras, até que vejo Logan sentando na ponte, olhando a cachoeira.

Está frio e gotinhas de água chegam até mim conforme me aproximo dele. Não falamos nada por alguns segundos, até eu notar que ele segura a foto. Estico o pescoço e crio coragem para pegá-la. A princípio, ele a segura com força, mas logo seus dedos afrouxam.

– Bonita. Quem é?

Mais silêncio.

A garota na foto é magra, tem o cabelo loiro acinzentado e sorri. Um sorriso genuíno, cheio de dentes e olhos apertados, como se alguém tivesse acabado de contar a melhor piada do mundo.

– Minha ex-namorada – ele responde.

Olho de novo para a foto, imaginando o lindo casal que eles formavam.

– O que aconteceu? Você ficou bem chateado lá na fogueira – pergunto delicadamente.

– Eu não gosto que mexam nas minhas coisas.

Ok, então. É obvio que tem algo mais ali, mas não vou pressionar. Ele pode não querer falar, mas posso está ali por ele. Apesar do frio, o céu está limpo e estrelado. Começo a contar as estrelas, é uma coisa que faço desde criança, sobretudo quando fico chateada.

– Ela é minha ex namorada morta. – As palavras saem assim, rápidas e duras. De repente ele se parece demais com a Carol, falando rápido, as palavras saindo sem controle como se ele quisesse se livrar delas. – Estávamos indo viajar no ano-novo, ela estava animada porque eu prometi lhe dar algumas aulas de surfe. Eram cinco da manhã, eu estava colocando a mala dela no meu porta-malas e ela estava encostada na porta bem ao meu lado. Um carro desgovernado veio…

Meu Deus. Um nó se forma em minha garganta.

– Sinto muito.

– Não é nada, Giovana. Sei que fui um pouco invasivo mais cedo, mas você tem razão em não ficar comigo.

Fico confusa porque ele continua indo rápido demais.

– Você tá aqui, veio atrás de mim e isso significa que você é legal. Se você tivesse me dado moral ia acabar significando nada, era só mais uma foda… Você não merece esse tipo de coisa.

Sua honestidade bruta me assusta e me magoa.

– Você não precisa afastar as pessoas só porque está sofrendo, Logan. Sua namorada morreu e eu não consigo nem pensar em quão horrível isso seja, mas você não precisa passar por isso sozinho. Eu te conheço a menos de vinte e quatro horas mas… Pode contar comigo. – digo segurando sua mão.

– Desculpa… Você deve achar que eu sou louco, mas só estou perdido. Eu amava a Heather. Eu amo a Heather e sinto que nunca mais vou amar ninguém.

– Eu sinto muito… Sinto tanto, Logan. – o abraço, de verdade, com ambos os braços envoltos em sua cintura, minhas mãos apertando suas costas.  Ele cheira  como o verão e isso me fez feliz, me lembra minha infância.

Ficamos sentados na ponte por bastante tempo, ele tirou o celular da mochila e dividimos seu fone de ouvido, ouvindo sua playlist, às vezes eu conhecia a música, outras vezes eu nem escutava. Ele foi se acalmando e eu me perguntando como deve ser você se sentir tão quebrado a ponto de desabar com qualquer pessoa. Com uma estranha. Como deve ser solitário você perder o amor da sua vida.

Eu nunca mais vou amar ninguém ele dissera. As palavras dele não paravam de bater na minha cabeça. Parece injusto um discurso tão fatalista sair da boca de alguém tão jovem.

– Logan? – eu quebro nosso silêncio – Você acha que não vai se apaixonar de novo, mas vai. – ele se inclina pra mim, olhando no fundo dos meus olhos, como se tentasse captar a verdade de minhas palavras. – Eu te prometo… E tudo bem se apaixonar. Você não vai trair a Heather se isso acontecer. Eu não a conheci, mas eu conheço você e tenho certeza que ela quer que você seja feliz.

Ele não diz nada quando termino de falar, mas acaba concordando com um gesto de cabeça. Roço meus lábios de levinho na boca dele. Ficamos assim por alguns segundos, sem desenvolver o beijo, só respirando o ar um do outro, nem fecho os olhos, mas vejo seus cílios cerrados. Não sei o que acontece, talvez eu só esteja querendo provar meu ponto de vista, mostrar que tudo bem seguir em frente.

– Você não faz ideia né? – ele pergunta quando nos afastamos. – De como é linda.

– Não vamos fazer isso, tá bom? – digo constrangida. – Eu to afim de outra pessoa. Podemos ser amigos?

Ele sorri, não está me jugando. Logan tira seu fone e o coloca em mim, depois mexe no celular. A música que começa, a voz me causa arrepios e há tanta energia na letra que a sinto pulsando em mim.

Don’t take this the wrong wayYou knew who I was every step that I ran to youOnly blue or black daysElecting strange perfections in any stranger I chooseWould things be easier if there was a right way? / Honey, there is no right way / And so I fall in love just a littleOh, little bit every day with someone new…

Quando a música termina, continuo imóvel, imersa em cada palavra dessa canção triste e apaixonada. Sabendo que o som tinha acabado, ele se levanta e oferece a mão para que eu faça o mesmo.

– Hozier, meu artista favorito – ele explica. – Vamos voltar lá, acho que precisamos de uma cerveja.

– Eu estou de moto hoje.

– Moto? – pergunta surpreso.

– É uma coisa que eu faço desde adolescente. – conto enquanto voltamos para uma fogueira agora acessa. – A gente morava em um chalé e meu pai me levava para estradas desertas para me ensinar a andar sob duas rodas. É uma coisa meio nossa.

Ele sorri e murmura um legal antes de andarmos lado a lado, ambos com as mãos no bolso. Os grupos agora estão mais dispersos, Carol e Bea estão em um canto afastadas com os braços cruzados parecendo bem insatisfeitas.

– Acho que não sou a pessoa favorita delas – ele diz seguindo meu olhar.

– Bem, você quase matou o namorado da Bea e deixou a Carol pra ficar comigo… Então, talvez você esteja um pouco encrencado. – Digo com um sorriso.

– E o Matt? Ele parece um cara legal, mas não consegue tirar os olhos de você – ele aponta para o lado oposto de onde as meninas estão, no lugar exato onde Matt está nos olhando.

– É… Ele é.

– Mas…

– Nós nos conhecemos desde crianças. Ele é aquela pessoa que está sempre ao seu lado e todo mundo começa a achar que pode ter alguma coisa ali e de repente você começa a se perguntar se isso pode acontecer mesmo. Eu achava que eu devia isso a ele, saber se podíamos ser mais. Começamos a namorar no ensino médio e terminamos no inicio das férias.

– Você terminou – ele deduz.

– É… Ele continua dizendo que ainda acredita em nós, mas está só se enganando. Ainda vai cair a ficha.

Uma risada acaba atraindo nossa atenção. Dean está jogando cartas com os caras, a risada dele é contagiante e eles começam falar muito alto. O corpo grande, mas não definido apoiado em uma árvore, o sorriso espalhado em seu rosto. Inconscientemente, suspiro.

– Ok! Meu primeiro conselho de amigo. Está preparada? – ele diz me fazendo sorrir. – O Dean? Ele não é o cara que você espera que ele seja.

Me incomodo com suas palavras porque não gosto dessas suposições. Ele chegou há menos de um dia e já acha que sabe tudo sobre todo mundo? Dou os ombros e ignoro o alerta.

– Acho que preciso descobrir isso sozinha – me afasto, indo em direção as meninas. – Logan? Você não vai ser triste para sempre, tá?

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