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Capítulo Um

 

Capítulo 2

Ele não está tão a fim de você

 

Anos depois

Estou terminando de me vestir quando ouço a campainha tocar. Olho meu relógio de pulso: seis e meia da manhã. Tão pontual e tão cedo assim, só pode ser a Carol. Ela voltou do intercâmbio na França semana passada e quer me acompanhar no Pilates para conhecer, depois de ver minhas fotos no Instagram na quais estou em várias posições inusitadas.

Abro a janela do quarto para deixar o ar circular e para o dia me trazer boas vibrações, arrumo minha cama e dou uma olhada geral para ver se não deixei nada fora do lugar. Nos primeiros semestres da faculdade, eu e a Bea alugamos esse apartamento. Meses depois, ela ganhou uma bolsa para estudar fora e eu acabei ficando sozinha. Mesmo assim, não desisti da ideia porque simplesmente amo esse lugar. Não tem nada demais. É pequeno, mas tem janelas amplas que o deixa sempre iluminado e uma sacada que eu enchi de plantas. Gosto de acordar cedinho e tomar café na sacada, enquanto pego os primeiros raios de sol da manhã. Gosto mais ainda de me sentar entre as plantas, depois de um dia de trabalho pesado, de banho tomado e com uma taça de vinho branco nas mãos, aproveitando a brisa noturna.

Divido meu tempo entre trabalhos freelas – que se resume a alguns sites, logos e coisas pequenas – os cuidados de casa, Pilates e Daniel. Às vezes, me pego pensando em como viemos parar aqui. Anos atrás ele me chamou para sair, um cinema daqui, um jantarzinho dali… Tenho a sensação de que em algum momento, fechei os olhos para beijá-lo e quando acordei, três anos já tinham se passado. Nunca rolou um pedido de namoro oficial, é simples assim, estamos juntos. Ouço tons de voz alterados vindos da sala e é melhor eu sair rápido se quiser manter minha casa inteira.

– O que você está fazendo aqui? – Carol pergunta irritada.

– Ei, Carol. – Logan a cumprimenta com a voz cinicamente sonolenta. – Entra.

Há anos eu e Logan somos inseparáveis. Carol não esteve aqui para presenciar o amadurecimento da nossa amizade e deve está achando a situação toda bem confusa. Semanas depois de Logan ter entrado definitivamente para a nossa turma, ela viajou para França, logo Bea ganhou uma bolsa para estudar na Irlanda. Eu fiquei sozinha e depois da noite no chalé, eu e Logan acabamos desenvolvendo essa amizade, sendo ele, inclusive, meu cupido – mesmo contra vontade – da história com Daniel. Ele sabe tudo sobre mim e eu sei tudo sobre ele. Temos essa conexão que só pode ser de outras vidas. Já fomos parados algumas vezes para sermos questionados se somos namorados, mas o pensamento sequer passa pela nossa cabeça. Ele diz que eu sou inteligente demais pra ele e eu nunca conseguiria namorar alguém tão bonito. Mas não é como se Carol não soubesse, afinal viajamos juntos para alguns lugares e recheamos nossas redes sociais com fotos e boas lembranças.

Indo para a cozinha a vejo parada na porta. Logan está de frente para ela e de costas pra mim, usando uma calça jeans baixa, descalço e sem camisa, apoiando o braço no portal. Ele adora provocar. Ela me vê por baixo de seu braço e é a deixa que precisa para empurrá-lo violentamente e entrar no apartamento, mas Logan é Logan. Ele quase não se mexe e ela passa espremida por entre a porta e seu corpo sarado. Reviro os olhos, eles não podem ser adultos.

– Giovana, o que está acontecendo aqui? – ela diz como se fosse a mulher traída que acaba de pegar o marido no flagra com a melhor amiga

– Bom dia. – Digo enchendo a cafeteira com água e café. – Eu é que pergunto. O que está acontecendo aqui?

Carol coloca as mãos na cintura, vestindo roupas de ginástica justas e o cabelo preso em um rabo de cabelo alto e apertado. Está comicamente nervosa.

– O que esse palhaço tá fazendo semi nu na sua casa a essa hora da manhã? – ela diz adotando um tom acusatório.

– Logan não gosta de voltar dirigindo pra casa quando bebe, dai, ele passa a noite aqui no sofá – explico calmamente.

Logan mora longe do centro, é comum ele dormir no meu sofá às sextas ou sábados ou o final de semana inteiro. Já dormimos na mesma cama algumas vezes, começamos assistindo filme e quando vemos já amanheceu. Mas Logan tem o sono agitado, então o sofá acaba sendo a melhor opção. Carol bufa ao ver o lençol e o travesseiro que estão jogados no sofá.

– O Dani ligou, disse que vai se atrasar – Logan passa o recado se juntando a mim na cozinha.

– Que novidade! – meu namorado parece ser alérgico a pontualidade e isso me mata. – Lo? Veste a camisa – censuro depois de despejar café em uma caneca.

– Por causa dela? – ele pergunta indignado.

Deus me dê forças.

– Porque estamos saindo e você precisa manter a roupa no corpo, já falamos sobre isso.

– O Dani sabe desse arranjo de vocês? – Carol pergunta perplexa com nossa rotina.

– Sabe. Qual é o problema? Eu e o Logan somos amigos, não estamos fazendo nada de errado, Carol.

O café queima minha boca e eu praguejo baixinho, Logan se encosta na bancada exibindo os seis gominho da barriga sarada.

– Ela está assim só porque eu não quis comer ela na festa de despedida – ele diz coçando a barba.

– Logan! – chamo sua atenção.

Um dia antes de a Carol viajar para a França, nós fizemos uma festinha. Todos nós passamos dos limites com as bebidas, mas a Carol se superou. Lembro-me nitidamente de estar conversando com o Logan na varanda, não lembro sobre o que falávamos, mas estávamos perto demais. Ela chegou, colocou os braços no pescoço dele e o guiou até seu quarto. Quinze minutos depois, Logan voltou atordoado e me encontrou conversando com o Dani. Ele não contou o que aconteceu lá dentro, mas até agora eu achava que tinha rolado uma rapidinha, mas afinal de contas, nada aconteceu.

Suspiro. Carol sai pisando duro, soltando fogo pelas narinas e bate a porta com força.

– Precisava? – reclamo em vão porque ele parece bem satisfeito. – Tranca a porta. E veste a camisa – digo enquanto jogo o resto da minha xícara de café fora.

– Ei! Você volta que horas? – pergunta quando passo por ele.

– Não sei, lá pelas sete? Te mando mensagem.

– Você vai se sair bem, não fica nervosa.

Eu não tinha percebido que estava nervosa, até me sentir subitamente calma pelas palavras de Logan. Hoje vai ser minha primeira entrevista de emprego desde que tenho um diploma. E não é só por causa da entrevista, é que se tudo der certo eu vou ter um emprego. Um emprego de verdade! Isso é tão adulto. Eu tenho um noivo, estou prestes a ter um emprego e não tenho ideia de como lidar com isso. Parece meio bobo, é bobo! Afinal, moro sozinha há anos e tenho um noivo há meses, não é como se fosse repentino, é só que ter um emprego fixo, parece fazer com que tudo fique sério demais. Logan alcança meu pulso e brinca com meu relógio.

– Você é talentosa, Gi – ele diz buscando meus olhos, me fazendo abrir um sorriso radiante pra ele.

– Preciso ir. – Me despeço dando-lhe um beijo na bochecha. – Obrigada.

Pego minhas chaves e vou atrás da Carol.

*-*-*

Há algo de mágico quando o céu assume o tom violeta alaranjado no final da tarde, sempre fico hipnotizada com essa beleza. Abro a janela do carro quando me a próximo da ponte, o apanhador de sonhos pendurado no retrovisor dança com a brisa que entra. Eu adoro passar por aqui, o cheiro muda, a temperatura cai, mas mesmo assim me sinto aquecida pelas lembranças. Nessa ponte, anos atrás eu conheci o Logan e meses depois foi onde Dani disse que me amava pela primeira vez. Olhando agora o diamante na minha mão esquerda, sinto que está tudo certo e se encaminhando para um final feliz. Tomada por todas essas lembranças, conecto meu celular no carro e ligo para o meu noivo para avisar que cheguei na cidade antes do previsto e que finalmente podemos cozinhar o risoto de cogumelos que vimos na internet.

Chama até cair e esse é o empurrão que o destino precisava me dar para eu fazer uma surpresa. Paro no supermercado a um quarteirão do apartamento do Dani e depois de uma rápida inspeção pelas prateleiras, compro cogumelos, pimentão, tomates e queijo, a caminho do caixa, escolho uma garrafa de vinho branco. Perfeito! Enquanto passo as compras no caixa, ligo pro Logan.

– Olá, senhorita – ele atende prontamente, me fazendo sorrir porque o telefone mal chamou.

– Uau. Tava com o celular na orelha?

– Não me orgulho disso, mas confesso que sou rápido no gatilho.

– Sendo assim, acho que na despedida da Carol, rolou mais do você estava pronto para admitir hoje de manhã – tiro sarro.

– Você sabe que não –  sua risada vibra do outro lado da linha.

Agora eu sei que não. Todos esses anos, Logan odiou a Carol porque ela é uma megera com ele, mas verdade seja dita, ele não deixa barato. Não sei bem qual é o problema com os dois, mas suspeito que Carol não lidou bem com um fora, embora ela nunca vá admitir isso.

– Então… Parece que vamos trabalhar juntos, afinal – conto a novidade.

– Meus parabéns, mas eu já sabia – ele diz calmamente.

Depois de uma rodada de entrevistas, consegui emprego na agencia em que o Logan é alocado, mas eu vou trabalhar diretamente com um cliente.  Consegui pegar o rebranding de uma marca que fez sucesso nos anos noventa e agora está de volta ao mercado. Logan foi peça fundamental nessa conquista, ele mostrou meu trabalho de Lettering para um amigo, que tinha uma amiga que conhecia alguém da marca e me colocou na jogada.

– Eu só queria agradecer a força se não fosse você me indicado…

– O mérito é todo seu. Você, Giovana Teles, é uma sabichona talentosa.

– Oitenta e dois reais e trinta centavos, senhora – a moça do caixa anuncia. Insiro meu cartão na maquininha e informo débito.

– Estou no supermercado, vou tentar fazer um risoto, topa? – convido.

– Huum… Estou tentado, mas já tenho compromisso.

Quando Logan fala que tem compromisso é um código secreto para “vou transar hoje”. Em sua defesa, ele nunca deixou de sair conosco por causa de mulher. Ele sempre diz que amizade vem em primeiro lugar.

– Compromisso? Desde quando rabo de saia é compromisso, Logan?

Depois de um silêncio incômodo, ele solta:

– Acontece que esse rabo de saia… Talvez, seja diferente.

Caminho até meu carro com o celular preso entre meu ombro e a orelha enquanto equilibro minhas sacolas nas mãos. Essa informação me pega de surpresa. Consigo imaginar sua nuca ficando vermelha por ter me contado isso porque sinto minha própria nuca pegando fogo.

– Alô? – a voz dele soa tímida.

– Você está falando sério? – pergunto.

– Estou. Sai com ela algumas vezes, a gente…

Algo cresce no meu peito, sou tomada por uma ansiedade esquisita e não consigo controlar o impulso de fazer um milhão de perguntas. Por anos, nós nunca deixamos nada pra depois e agora meu melhor amigo está saindo com uma garota que eu nem faço ideia de quem seja.

– Algumas vezes? O que aconteceu com a famosa regra de não sair com a mesma garota duas vezes na mesma semana, nem quatro vezes no mesmo mês? E quando você ia me contar?

– Respira. Eu ia te contar amanhã, no café da manhã. – Ele faz uma pausa antes de perguntar desconfiado, – Ainda está de pé, né?

A tradição de tomar café da manhã começou em um sábado quando ainda estávamos na faculdade. Eu estava pilhada, estudando para uma prova quando Logan invadiu meu quarto avisando que eu precisava relaxar. Caminhamos alguns quarteirões, eu ainda meio preocupada com as linhas que precisava ler e ele tentando me fazer relaxar, inventando piadas e tentando descobrir o que eu pediria do cardápio. Durante todos esses anos, caminhamos algumas quadras, compramos café no Coffee Royal e seguimos em direção ao Carameldream também conhecido como melhor café da manhã da vida.

– Gi? – ele me coloca de novo na conversa.

– Claro. – digo balançado a cabeça, tentando me livrar do desconforto. – Claro!

– Bolo de banana cremoso com sorvete de creme? – ele tenta adivinhar meu pedido.

– Acho que você vai ter que esperar até amanhã para descobrir. Amo você, Lo.

– Amo você, Gi.

Fico sentada no banco do motorista alguns instantes antes de dar partida. Depois de anos presenciando o desfile interminável de modelos, médicas, garotas alternativas, atletas e aquela vez que ele saiu com uma proctologista de cinquenta anos, Logan está se amarrando. E isso é sério! Estou feliz porque ele merece. Logan merece todo o amor do mundo. Mas não posso ignorar o frio na minha barriga, eu vou ter que dividir meu melhor amigo. Encaro meu reflexo no retrovisor, minhas bochechas estão vermelhas, os olhos arregalados e pequenas gotas de suor povoam a minha testa. Dou partida no carro, deixando esses pensamentos egoístas para trás.

Em cinco minutos recolho tudo o que está jogado no banco de trás, para subir para o apartamento do Dani. Equilibro as sacolas de supermercados em um braço e minhas pastas e blazer no outro. O apartamento está quieto quando entro, coloco minhas pastas e o blazer no sofá e as compras no balcão da cozinha. Dani está em casa, sei disso porque suas chaves, carteira e celular estão sob o balcão, talvez esteja tirando uma soneca. Abro a porta do quarto com cuidado, os lençóis estão bagunçados e ouço o barulho do chuveiro ligado. Bingo! Sento na beiradinha da cama, louca para libertar meus dedos da opressão das botas. Quase reviro os olhos de prazer quando minha sola toca o chão gelado, eu amo ficar descalça, o Dani odeia. Prendo meu cabelo em um coque alto e vou até o banheiro, notando que a porta está só encostada. Ouço um ruído baixinho e a abro um pouco.

– Assim está gostoso?

A bile sobe na minha garganta. É a voz do Daniel. Pela fresta da porta, vejo uma calcinha na pia, calcinha essa que não me pertence. Cubro a boca. Mais gemidos. Mais palavras. As palavras que ele usava comigo. Usa comigo. Estou prendendo a respiração, minhas mãos começam a tremer e eu me afasto da porta como se ela tivesse me eletrocutado. Olho para a bagunça na cama, a mesma cama em que fizemos amor noite passada. Me afasto como se há qualquer momento esses lençóis pudesse criar vida própria e me estrangular. Pego minhas pastas e ao pegar o blazer, o anel no meu dedo grita, analiso a pedra preciosa… Incrível como o significado de um objeto muda com apenas uma atitude. Tiro o anel e o coloco em cima da mesinha de centro. Não quero ter que olhar pra ele de novo, não quero escutar uma explicação fajuta.

Atordoada, opto pelas escadas porque se eu ficar parada no elevador tenho a sensação de que o prédio inteiro vai desabar na minha cabeça. Não paro nem quando chego ao carro, as mãos ainda trêmulas parecem ter vida própria quando dão partida, fazendo os pneus cantarem, sabendo que só tem um lugar para onde quero ir.

Bato na porta do Logan, sem nem saber como consegui chegar aqui. Não derramei uma lágrima, mas sinto um bolo queimando minha garganta me sufocando. Ele abre a porta usando só uma calça de moletom, eu devo está péssima porque a cara que ele faz me despedaça.

– Gi?

– Eu e o Daniel nós… Ele tem… – vou falando rápido, sem conseguir completar os pensamentos, tudo de uma vez, atropelando minha cabeça.

– Pode ser a com manteiga, né? – uma loira chega abraçando Logan por trás e a expressão dela confirma que eu devo está um lixo, mesmo sem ter derramado uma lágrima.

– Ah desculpa, eu vou… – Ela diz sem graça apontando para cozinha antes de sumir.

Droga.

– Desculpa, Lo… Eu não pensei, eu só… – Dou as costas para ele que está com uma expressão confusa e preocupada. Corro para a segurança do meu carro e dou partida.

– Gi? Gi! – ele me chama.

Só quero ir para casa, saio cautelosamente, tentando trabalhar minha respiração. Parece que dirijo no piloto automático, não vejo nada além do caminho que me leva ao meu lar. Quando finalmente estaciono, saio do carro e opto mais uma vez pelas escadas. Erro algumas vezes a chave na fechadura, praguejo sentindo o choro se espreitando, chegando cada vez mais perto. Algumas mechas do meu cabelo se soltaram e agora estão grudando no suor da minha nuca, me dando agonia. Tranco a porta nas minhas costas, e choro ali mesmo, sentada no chão, com as costas apoiadas na madeira. Levo os joelhos até o peito, tentando aliviar a pressão que eu sinto, a dor que se espalha. Meu choro me rasga, acaba comigo, mas também me cura, lava a minha alma.

Não sei quanto tempo fico ali, mas me levanto um pouco mais aliviada, livre da sensação de está sendo sufocada pelo meu próprio organismo. Vou até a cozinha, pego uma garrafa de vinho e bebo a primeira taça de uma vez, sirvo outra e dessa vez consigo frear meus pensamentos. O Daniel não vai me transformar nessa pessoa. Me obrigo a caminhar até o banheiro, deixo a taça pela metade na pia e entro no chuveiro. A água fria que eu tanto odeio me lavando, me permitindo chorar de novo.

Hoje eu vou chorar, mas amanhã tudo estará acabado, prometo a mim mesma.

Me dou ao trabalho de vestir uma calcinha e uma camiseta que o Logan largou aqui em casa meses atrás e nunca buscou. Encho a taça de vinho novamente e me sento no sofá com o controle da TV na mão. Mas não a ligo, não consigo pensar em nada que eu queira ver. Olho ao redor. A casa escura, o silêncio … De cabelo molhado, nariz vermelho e olhos inchados, eu existo ali.

A campainha toca, mas eu a ignoro. A pessoa insiste.  Logan insiste.

– Gi? – sua voz soa séria, preocupada. – Gi, se você tiver ai fala alguma coisa. Eu to preocupado! Você não atende o celular. Por favor!

Droga! Eu desliguei meu aparelho assim que sai do apartamento do Daniel, mas não é justo com Logan. Vou para perto da porta e falo:

– Ei Lo, to aqui. Eu desliguei o celular. Desculpa por ter te deixado preocupado, tá tudo bem.

– Abre a porta – ele insiste.

– Vai pra casa, Lo. Eu to bem – reafirmo.

– Abre a porta, por favor. Eu preciso olhar pra você.

– Não, Logan. Eu quero… Eu preciso ficar só.

– Sou eu.

Ele não vai desistir e algo em sua voz, me desarma. Ciente de que estou vestindo apenas uma de suas camisetas velhas que mal chega a metade das minhas cochas e calcinha, abro a porta devagarinho. Ele está parado na minha porta, um vinco de preocupação entre as sobrancelhas. A preocupação logo dá espaço para o alivio e ele se apressa para me abraçar forte.

– Eu não queria que você me visse assim – confesso fazendo seu peito vibrar com uma risada.

Linda do jeito que é / da cabeça aos pés /do jeitinho que for… – ele cantarola, me fazendo rir e chorar, tudo junto. – Eu sinto muito, Gi.

– Eu não quero mais olhar pra ele, Lo.

– E não precisa – ele diz nos guiando para dentro do apartamento, fechando a porta com os pés porque ainda estamos abraçados.

– Desculpa a demora, eu tive que levar a Laura em casa… Mas agora estou aqui. – Ele me beija na testa e se afasta. – Gostei da camiseta.

Elogia e eu consigo abrir um sorriso triste.

– Você está bebendo vinho – ele diz notando a taça na mesinha de centro. – Então espero que tenha cerveja pra mim.

Logan fuça minha geladeira e tira uma garrafa de Budweiser de lá. Sento-me no sofá, colocando uma almofada no meu colo, sentindo-me repentinamente constrangida.

– Que assistir alguma coisa? – ele pergunta se juntando a mim no sofá e dando um longo gole na garrafa.

– Só quero ficar quietinha, mas podemos assistir a qualquer coisa que você queira ou… Ir embora. O que você ta fazendo aqui, Logan? Você tinha compromisso.

– Quer conversar sobre o que aconteceu? – ele diz me ignorando.

– Não.

– Qual é? – ele resmunga com uma acusação implícita na voz me dizendo que a gente conta tudo um para o outro. Tenho vontade de jogar na cara dele que ele andou namorando por ai sem me contar nada, mas não é o que eu acabo fazendo.

– O que tem pra conversar? Meu noivo tava na cama com outra enquanto eu tentava conciliar meu trabalho e os preparativos para o casamento. É simples assim – respondo amargamente.

– Eu quero saber o que você ta sentindo.

– Humilhação, fracasso, a mulher mais feia do planeta…

Ele não tem culpa, me dou bronca, mas não quero romantizar nada. Deixo minhas defesas caírem porque ele é Logan, meu melhor amigo.

– Eu não quero me sentir assim, Lo! O que eu fiz de errado? O que faltou pra ele? Eu estava a disposição pro sexo, então eu sou ruim de cama? Eu me sentia sexy em casa quando estava sem maquiagem mas fazia questão de me maquiar para as reuniões dele, ele dizia que eu estava estonteante! Eu me arrumei demais ou me negligenciei? O que aconteceu? Quando eu deixei de ser suficiente?

Me sinto vazia e patética, embora meu choro seja mais controlado agora. Ele me puxa para seu peito e beija o topo da minha cabeça.

– Shhhh… Cala a boca. Cala. A. Boca… Você não é nada disso… O Daniel é o tipo de cara que nunca vai acabar com a mulher perfeita porque você é demais pra ele e ele não consegue lidar com isso. Ele precisava provar de alguma forma que podia ser melhor que você e infelizmente foi assim que aconteceu. Você é linda, Giovana. Você é inteligente e está construindo uma carreira. Isso é demais pra ele. Você não fez nada de errado, ele fez.

Depois de passar um tempo ensopando sua camiseta com minhas lágrimas, desistimos do sofá e nos deitamos na minha cama como já fizemos tantas outras vezes. Logan liga o som baixinho, não consigo ouvir direito o que está tocando, mas provavelmente é alguma canção do Bon Jovi. Ele toma várias cervejas, enquanto falando sobre tudo e nada e pede para eu deitar em seu peito.

– Eu gosto – ele justifica.

Me aconchego nele, nossas roupas tem o mesmo cheiro porque ele sempre rouba meu amaciante, e assim me sentindo pesada pelo o álcool e pelo choro, adormeço rapidamente.

 

Pisco várias vezes até meus olhos conseguirem se ajustar a luz que entra pela minha janela, demoro alguns segundos para entender o que é o peso que sinto na barriga. É a mão do Logan que está espalmada sob minha pele nua, onde no decorrer da noite a camiseta deve ter subido, a deixando exposta. A minha pele bronzeada contrastando com a brancura da dele. Sua mão quente em conflito com a frieza da minha. A mão cheia de calos pesando na delicadeza do meu ventre. Me levanto com cuidado, deixando-a cair ao lado do seu corpo.

Vou até o banheiro, tomo banho e tento desembaraçar os nós que se formaram no meu cabelo. Troco de roupa ainda no banheiro e quando saio, Logan está na mesma posição que eu o deixei. Ele está tão diferente da foto que tenho na minha escrivaninha. Uma foto que tiramos em Barcelona dois ou três anos atrás quando fizemos um mochilão na Europa.

Naquela época, ele não usava barba, agora ostenta um emaranhado de pelos ruivos no rosto e por incrível que pareça, faz o maior sucesso. Eu gosto e desgosto na mesma medida. Ela esconde os lábios dele, que são lindos! São os lábios mais bonitos que já vi, claro que nunca falei pra ele… Eu os notei quando estava aprendendo aquarela e o desenhei para treinar. Fiquei horas tentando reproduzi-los mas nunca consegui. Eu os já tinha notado antes, claro, quando ele resolveu me dar aulas de inglês nas férias.  Era muito fofo o formato redondo que eles formavam quando ele dizia palavras como no. Naquelas férias, eu ri muito, pois descobri que a sua palavra favorita era fucker. E nós passamos tardes e mais tardes exercitando meus palavrões em inglês.

Mas gosto que a barba os esconda porque só eu tive acesso a essa beleza. As outras garotas podem se contentar com o seu sorriso que é quase tão perfeito quanto. Só eu tive acesso a essa beleza, agora a outra menina também vai ter. É estranho está aqui pensando nos lábios de Logan, e o pior, estar sentindo ciúme deles. Somos amigos há anos, não é como se eu tivesse ficado imune a sua beleza, é que eu me acostumei a não admirar. O braço tatuado está repousado em cima da sua cabeça, todas as tatuagens em tema marítimo old school tem um significado especial pra ele e até um pedaço de mim está ali. Será que ele vai contar isso para a garota?

Balanço a cabeça porque eu não deveria está pensando nessas coisas. Ele está feliz e tudo por causa dela. Saio de mansinho do quarto e procuro minhas chaves na sala, as encontro do lado do meu celular na mesinha de centro e me pergunto se é uma boa ideia ligá-lo. O que eu vou encontrar? Chamadas perdidas, mensagens tentando adivinhar como o terreno está? Definitivamente,  não estou pronta para isso. Daniel me conhece, ele sabe que não deve me procurar, mas vai. Largo o aparelho desligado e parto para o estúdio, posso pensar nisso mais tarde.

 

– Por que você é tão disposta de manhã? – Logan pergunta no momento em que eu fecho a porta assim que chego do Pilates. – E por que estou me sentindo um merda?

Vou até a cozinha, tomo um copo de água e respondo sua pergunta.

– Não sei explicar. Desde criança sou matutina, amo acordar cedo, ver o sol nascer… O cheiro da manhã é diferente. Pego uma sacola no puxa saco e vou até a mesa de centro em frente onde ele está sentado no sofá e começo a recolher as garrafas de cerveja que estão espalhadas por ali e aproveito para responder a segunda pergunta.

– Você não está se sentindo um merda. Você é um merda – tiro sarro.

– Estou começando a achar que esse tal de Pilates realmente funciona. Sua bunda tá sensacional. – Me viro para ele que está curtindo a minha paisagem na maior cara de pau com um sorriso brincalhão e talvez um pouquinho safado.

– Cala a boca se você quiser tomar café da manhã usando seus dentes. E para de sorrir desse jeito, é esquisito! – minto, porque é maravilhoso.

Obrigo Logan a lavar minha louça e aproveito para trocar de roupa.

– Você ainda está reclamando? – digo quando volto à cozinha e o encontro resmungando. – Deve ser fome, vamos embora.

Caminhamos alguns quarteirões e compramos nosso café grande, sem espuma, com caramelo, chantilly e extra de caramelo.

– Então quer dizer que você vai pedir hoje um cheesecake de frutas vermelhas? – ele tenta adivinhar.

– Não.

– Cookie de gotas de chocolate com sorvete?

– Eu sempre peço cookie, é minha sobremesa.

– Não com sorvete – ele pontua.

– Não, não vou pedir cookie.

– Brownie de laranja com nozes? Mil folhas com doce de leite, creme e cereja? – ele continua tentando.

– Meu Deus. Você está péssimo hoje!

– Nah… Só estou te enrolando porque ia ser muito fácil se eu falasse que você vai comer a guirlanda de frutas secas com caramelo, doce de leite e açúcar queimado de primeira.

– Logan? Você é um gênio!

A faixada rosa claro com marrom da Carameldream nos acolhe assim que viramos a esquina. Logan, abre a porta pra mim, fazendo um gesto antiquado para que eu entre primeiro. Escolhemos a mesa encostada na janela porque as mesas da janela são as únicas que tem jarrinhos de flores e eu amo.

– Olha se não é minha dupla favorita! – Margarete nos cumprimenta. Ela é funcionária mais antiga da casa e sempre nos atende e de quebra nos diverte com suas histórias dos anos setenta.

– Ei, Margot – Logan a chama carinhosamente. – Seu neto nasceu?

– Ainda não! Mês que vem – ele responde toda coruja.

– Já escolheram o nome? – pergunto.

Ela fala da filha grávida desde o dia da grande descoberta. Logan e eu até compramos sapatinhos para presentear.

– Téo.

– Lindo nome – Logan elogia.

– O que vocês vão querer hoje?

– Margot, nós vamos querer uma fatia da guirlanda de frutas secas – Logan diz dando um sorriso convencido – e…

É a minha vez de descobrir o pedido dele.

– Um cheesecake de pecã com nozes? – arrisco.

– Errou! Um waffle de maçã e canela.

Margarete anota nossos pedidos e com um sorriso vai para a cozinha.

– Como você está hoje? – Logan pergunta.

Penso um pouco antes de responder. Meu celular continua desligado e tenho a sensação de ter estado aérea desde a hora que acordei, não pensei muito no assunto porque parece tão surreal. É uma conta difícil de se fazer, ontem estava tudo certo, hoje o dia amanheceu diferente,

– Eu disse a mim mesma que eu estava liberada para extravasar ontem, para que pudesse ficar tudo bem hoje. Então aqui estamos nós.

– Você não precisa se esconder de mim.

– Não estou. Juro… Eu só não estou pronta pra nada ainda, Lo. Eu não quero vê-lo e tem algumas coisas minhas no apartamento dele e dele no meu apartamento. Quero fazer isso logo… Será que você… ?

– Claro. Eu levo as coisas dele e trago as suas. Não garanto que o nariz dele volte a ser o mesmo depois dessa visita, mas estou disposto.

– Obrigada, Lo.

Margarete volta com nossos pedidos e no momento em que provo a guirlanda, solto um gemido.

– Ai meu Deus, Logan! Isso é incrível.

– OK. Minhas calças estão apertadas. Talvez tenha uma mancha nela.

Gemo de novo.

– Caramba, Gi. Nenhuma garota gemeu pra mim desse jeito. To meio ofendido.

– Isso porque você não tem esse sabor.

– Não? Olha, a gente pode pedir o deposito pra Margot, ai você pode comprovar…

– Cala a boca e prova isso – digo enfiando um garfo em sua boca. Ele geme e é o barulho mais incrível do planeta.

– Você ta gemendo pra um pedaço de torta, Lo! – me divirto.

Terminamos de comer minha torta entre gemidos e risadas e começamos atacar seu waffle que não é tão bom quanto a minha torta, mas nada vai ser melhor que isso e de repente é tudo o que eu preciso. Uma surpresa agradável.

– Você ia me contar coisas hoje no café da manhã, lembra? Qual é o nome dela mesmo? – pergunto tentando soar interessada, mas não interessada demais.

– Não precisamos falar sobre isso agora. Não quero que…

– Não! Se tem uma coisa que precisamos falar é sobre isso. Desembucha.

– Laura. O nome dela é Laura. E ela é… Ela é uma em um milhão. – os olhos dele começam brilhar de empolgação. – Ela é amiga de um dos caras do trabalho e estamos saindo há três semanas. Ela é mais nova que eu, bonita – muito parecida com você nesse quesito – ele fica vermelho ao me direcionar o elogio. – E é isso, acho.

Termino meu café e sorrio ao ver seu encantamento. Ele me olha meio encabulado, como se só agora tivesse parado para entender o que acabou de me falar.

–  Sabe… Por um tempo eu achei que não fosse me apaixonar nunca mais, depois comecei a achar que você era a pessoa que ia me tirar dessa certeza, eu achava que era apaixonado por você, Gi… – ele confessa brincando com o guardanapo.

Logan sempre flertou comigo, mas eu sempre levei na esportiva. Ele não estava falando sério, ele nunca nem tentou me beijar! Eu sempre levei seu flerte inofensivo com uma brincadeira… Logan não é apaixonado por mim.

– Enfim… – Ele continua. – Você tem que conhecê-la.

Sorrio pra ele e é um sensação estranha. Porque estou genuinamente feliz mas meu cérebro não para de alertar que tem alguma coisa fora do lugar.

– Estou sentindo falta das suas covinhas – ele diz ao notar que eu não disse uma só palavra.

– A vida não tem dado motivos pra elas aparecerem por agora…

– Você não vai ser triste para sempre, Gi.

 

3 comentários para “Vinho de Cereja – Capítulo dois”

Juliana
29/09/2016 às 10:53

Se ainda faltava alguma coisa pra me deixar completamente apaixonada por esses dois… definitivamente não falta mais!! “In love” real/oficial por esta história!!! Quero mais, mais, mais… e logo! 😉


30/09/2016 às 23:41

Oi Ju!!!! Hahahaha Obrigada! Só você mesmo


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