Antes das Cinco » Arquivos Vinho de Cereja - Capítulo Um - Antes das Cinco
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Capítulo 1

O Grande Começo

 

O primeiro dia de aula do semestre é desolador. É hora de trocar o protetor solar e os óculos escuros por cadernos e óculos de grau. Mas também é a hora de reencontrar os amigos depois de longas férias – tão longas que a saudade dos familiares logo vira uma ansiedade terrível de ser livrar deles de novo.

Com uma última conferida no espelho, decido soltar minhas madeixas loiras sabendo que estarão embaraçadas ao mínimo sinal de vento. Dispenso a base e o pó compacto porque decidi não esconder mais as sardas que povoam meu nariz e se espalham pelas bochechas, essa atitude seria impensável no semestre passado. Meu cabelo deveria estar sempre arrumado e minhas imperfeições escondidas, mas qual é o sentido disso tudo? Eu fiquei quase três horas me arrumando para uma festa, para no final não ficar parecida comigo, definitivamente não quero ser essa pessoa. Avalio se está tudo certo com minha roupa, pego minha mochila no chão e desço as escadas para encontrar meus pais que já estão a postos na cozinha.

– Bom dia! Como estou? – brinco fazendo uma pose em frente à mesa.

– Espetacular, Gio. – Meu pai diz baixando o jornal com um sorriso orgulhoso.

Minha mãe coloca uma cesta de pães na mesa e vem me dar beijos em ambas as bochechas.

– A Bea vem te buscar?  – ela pergunta arrumando a gola da minha jaqueta jeans.

– Uhum. Ela deve está chegando.

Mal fecho a boca e ouço o som da buzina. Engulo um copo de suco de laranja e me despeço dos meus pais dando-lhes beijos apressados. O fiat 500 da minha melhor amiga está estacionando na rua em frente a minha casa, aperto minha jaqueta no corpo e franzo o nariz ao notar que o sol não saiu hoje.

Adeus, verão.

– Bom dia! – cumprimento-a jogando minha bolsa no banco de trás.

– Ei! – Bea diz arrumando o espelho retrovisor que ela ajustou para passar batom. – Como você está se sentindo no primeiro dia de veterana? Tomara que tenha muitos calouros gatos pra gente dar uma espiadinha, né?

Ela dá partida animada invadindo um pouco da calçada ao sair.

– A julgar pela nossa turma de calouros, acho que podemos ter esperança.

O percurso até a Universidade Azuis é longo, levamos de cinquenta minutos à uma hora para chegar até o campus. Hoje vai ser uma hora porque paramos na cafeteria do centro da cidade para nos abastecermos com café. Como da última vez Bea desceu, agora é minha responsabilidade comprar dois expressos com creme e caramelo em dobro. Normalmente, o Café Magnólia tem uma fila enorme, mas hoje dou sorte, só cinco pessoas na minha frente. Dez minutos depois estou de volta ao carro.

– Espera! Fecha o olho. – Bea ordena e eu obedeço. – Seu delineador borrou um pouquinho.

– Sem problemas, eu corrijo no banheiro quando a gente chegar.

Colocamos Hozier pra tocar e conversamos sobre nossos planos para o semestre que inclui nos mudarmos juntas para perto da faculdade, e sobre como vamos pegar matéria com o professor famoso por ser intragável.  Conforme nos aproximamos do prédio, minha ansiedade é reduzida a zero. Um dia antes das férias começarem, eu terminei com o meu namorado, que também era meu melhor amigo e ele vem me ignorando desde então.

O campus está cheio de pessoas se reencontrando depois das férias, conversas animadas e abraços por todo lado. Seguimos juntas pelo mesmo corredor, mas no final dele nos separamos. Vou para o banheiro enquanto Bea entra na secretaria. Arrumo meu delineador, me borrando algumas vezes antes de ficar satisfeita. Saio apressada porque minha aula já deve estar começando. Abro a bolsa para jogar o vidrinho dentro e acabo esbarrando em um modelo alto, ruivo e com ombros infinitos.

– Ei! Cuidado ai, Houston. – Sua voz é rouca, baixa e pretensiosa.

– Ai, desculpa, eu estava, eu… – franzo o cenho confusa. – Você me chamou de Houston?

Ele abre um sorriso enorme e estende a mão pra mim. Faço um check up total em seu corpo, ele vai derrubar muitas calcinhas por aqui, mas não a minha.

– É só uma brincadeira. Eu sou Logan Gallagher.

Claro que é! Ele é um estereótipo perfeito: lindo, americano, talvez atleta, não muito inteligente, com certeza. Ignoro a mão estendida.

– Prazer em te conhecer, Logan Gallagher.

– E você é… – ele diz estendendo a frase.

– Melhor começar olhar por onde anda, Dallas. – ignoro-o passando por ele com um esbarrão no ombro. Bea está parada no corredor me olhando perplexa.

– Você! – acusa.

– O que? Foi um esbarrão, totalmente sem querer.

Ela avalia as costas do Logan, dando uma manjada em sua bunda.

– Mas você precisa admitir que ele é gato.

– É. – Reconsidero enquanto caminhamos para a nossa sala – Mas não é meu tipo.

– Ah, pelo amor de Deus! Ele é o tipo de qualquer mulher. A não ser que o seu tipo seja…

– Cala a boca! – a interrompo cobrindo sua boca com a mão. Olho ao redor, esperando não ter chamado atenção. – Por que ainda estamos falando sobre isso? E se vamos falar sobre tipos, a senhorita devia rever o seu.

Bea sabe exatamente do que estou falando, quer dizer… De quem estou falando. Ela ama me dar conselhos e incentivos, só esquece de segui-los. Desde o começo do semestre passado ela está enrolada com o Guga. Tipo, bem enrolada, daqueles rolos que não vão nem pra frente nem pra trás.

– Tá. Assunto encerrado. Nossa, que stress! – ela dá o braço a torcer.

Não quero falar sobre o meu tipo, na verdade essa é uma linha pouco definida na minha vida. Achei o Logan bonito, mas não seria minha primeira opção em uma balada, por exemplo. Ele tem tudo atraente demais, é alto e por eu ser baixinha, isso me intimida um pouco, é dono de um cabelo ruivo cuidadosamente despenteado, os olhos pequenos, porém conhecedores. Sua maior qualidade, infelizmente, é também o seu maior defeito: ele é bonito demais. E eu tenho zero confiança para ficar com um homem desses.

Isso me leva ao meu segundo tipo, que no caso seria meu ex-namorado Matheus. Nos conhecemos desde os oito anos de idade e havia uma segurança muito grande ali. Ele faz o tipo atleta, mas também é fofo. O corpo malhado, os olhos azuis e a cicatriz  no lábio superior que por algum motivo é sexy, fazem dele o cara que todas as garotas querem conhecer, querem anda de mãos dadas. Estou me sentindo estranha por terminado, é estranho não ser mais a segunda parte da frase Matheus e Giovana. Mas no final, havia um sentimento profundo que não era paixão. Eu entendi, ele não.

E o meu terceiro tipo, que é o motivo de eu ter tapado a boca da Bea, é Daniel. Talvez, ele seja o tipo com que eu mais devesse me preocupar, pois entre o flerte descarado do Logan e o jeito carinhoso do Matheus existe sua confiança silenciosa. Ele trabalhou com meu pai nas férias e eu morria todos os dias em que o via no prédio todo engravatado. Ele é veterano de direito, o corpo magro e totalmente proporcional morou nos meus sonhos mais sujos durante todo o verão.

Caminhamos em silêncio até encontrarmos nossa sala no final do bloco A e antes de entramos, Bea, me puxa pelo braço.

– Sério, não sei porque você ainda não chegou junto.

Eu sabia que ela não deixaria o assunto morrer.

– Ele nem sabe que eu existo – suspiro.

– Ele elogiou suas covinhas!

Verdade. Mas para ser justa, todo mundo elogia minhas malditas covinhas. Os elogios passam batidos, mas dessa vez não deu pra esquecer. Ficou gravado na minha mente e é a lembrança que me agarro todos os dias quando preciso de um alivio.

Eu estava esperando meu pai para almoçar. Shirlei, a secretária dele precisou ir ao banheiro e eu me sentei em sua mesa. Daniel entrou na sala roubando o meu fôlego, olhando para uma pasta. Quando levantou o olhar para mim, eu abri um sorriso e ele me espelhou, abrindo um sorriso tão cheio de dentes quanto o meu.

– O Dr. Ricardo está, covinhas?

Cinco palavras. Cinco palavras foi o que trocamos durante todo o verão e foram suficientes para incendiar a minha calcinha. Balanço a cabeça para afastar a lembrança porque sinto meu pescoço se aquecendo, mas Bea não está prestando atenção, seu olhar está fixado atrás de mim.

– O Matheus não para de te olhar.

Me viro a tempo de ver meu ex-namorado e pelo visto, ex-melhor amigo, desviar os olhos de mim e sair pro lado oposto com alguns amigos.

– Vamos pra aula – digo frustrada puxando Bea pelo braço. – O dia mal começou e já está cheio de drama.

No intervalo, saímos apressadas da sala porque Bea estava entrando em pânico com a aula de História da Arte. Vamos até a cantina, onde descobrimos que todas as atléticas se reuniriam para dar boas vindas aos calouros no chalé da cachoeira. Ninguém sabe ao certo de quem é esse chalé, boatos dizem que é de um cara que se formou anos atrás, mas no final isso não importa, é lá que rola as maiores festas da faculdade. Compro um cookie enquanto Bea procura uma mesa para sentarmos. Levo alguns segundos para localizá-la, pois ela já não está mais sozinha.

– Giovana! – Nossa amiga Carol me aperta em um abraço e abre espaço para eu me sentar entre as duas. – Como está sendo o primeiro dia de aula de vocês? Eu juro que se tiver que ouvir mais uma palavra sobre Ciência Política eu me dou um tiro! Vocês já deram uma olhada no Ruivinho Sensação?

Eu e Bea trocamos um olhar, reprimindo o sorriso. Essa é a Carol, sempre falando sem parar e cumprimentando todas as pessoas possíveis. Ela possui as mesmas características que eu, talvez um pouco mais adulta sem as covinhas e as sardas, e ao passo que sou loira natural, o cabelo dela é tingido, mas ela é estonteante. Uma it girl, digna de Serena Van Der Woodsen. Carol está sempre por dentro de tudo, é efusiva e até um pouco agressiva.

– O nome dele é Logan, está vindo do litoral e faz o quarto período de design gráfico – ela continua tagarelando.

– Nossa… Já coletou tudo isso? – Bea comenta.

Ela dá os ombros e morde um cookie como se não fosse nada demais.

– Bom, eu preciso passar na biblioteca antes de voltar pra aula, então… – anuncio, colocando minha mochila nas costas, mas Bea e Carol não estão prestando atenção em mim, seus olhares estão fixos por cima do meu ombro. Me viro e encontro Logan bem atrás de mim.

-Você deixou cair isso mais cedo – ele diz mostrando o vidrinho de delineador.

Ele está perto demais, de modo que eu preciso levantar o queixo para ver seu rosto e eu não gosto disso.

– Ah… Deve ter caído da minha bolsa. Obrigada.

– Não por isso. – Ele diz enfiando as mãos no bolso e dando mais um daqueles sorrisos idiotas. – E esqueceu de me dizer seu nome também.

Sorrio com seu atrevimento.

– Ei, você é o Logan, certo? – Carol se intromete. – Você está sabendo que vai rolar o encontro das atléticas hoje no chalé? Vai ser bem legal.

– Você vai? – ele se vira pra mim, ignorando-a.

– Estarei lá – confirmo.

O sol está se pondo quando eu e Bea saímos de casa para irmos ao chalé. Estava desacostumada a acordar cedo e acabei dormindo a tarde inteira. Bea está me contando sobre um artista que ela conheceu na internet, enquanto Gil e Caetano soam nos alto falantes do rádio. O clima ameno vai dando espaço para uma noite fria, de modo que agradeço por enxergar uma fogueira ao longe, assim que estacionamos.      – Ei, olha só as atrasadas – Carol vem em nossa direção com uma garrafa de cerveja na mão.

– Perdemos algo? – Bea questiona.

– Ainda não… Ninguém bêbado o suficiente. – ela diz verdadeiramente frustrada.

O que não é bem verdade, porque ela está balançando de um jeito solto demais e isso só pode significar que aquela não é a sua primeira cerveja.

– O Logan trouxe um violão, está sentado na fogueira com os meninos, Guga, Dani… O Matheus. – ela insinua.

A seguimos até a fogueira. Damos um oi geral, Bea corre para se aconchegar entre as pernas do Guga e eu reviro os olhos porque não sou obrigada a ser fã do cara que enrola minha amiga. Me sento ao lado de um dos meus calouros de publicidade, mas me arrependo na hora porque Matheus está sentado de frente pra mim e seus olhos estão implacáveis, tento um sorriso que é prontamente ignorado. Dani está há umas três pessoas de mim, conversando com Melissa, ela estuda Moda junto com a Carol, mas fizemos algumas matérias juntas. Ela é bonita, talvez seja por isso que o gosto amargo se misturou as borboletas na minha barriga. Logan termina a canção do Natiruts.

– Olha só! Chegou na hora certa, tenho uma música pra você – ele brinca comigo e todo mundo na roda fica atenta. Meu rosto fica bem vermelho quando ele começa a música de Tiago Iorc. Um misto de vergonha e irritação.

Linda / Do jeito que é / Da cabeça ao pé / Do jeitinho que for / É, e só de pensar / Sei que já vou estar / Morrendo de amor / De amor…

Aproveitando que toda a atenção está voltada pra mim, Carol dá um jeito de piorar tudo.

– Ei Dani, você conhece a Giovana? Você trabalhou com o pai dela nas férias.

Eu baixo a cabeça e mordo o lábio porque ela só pode estar de sacanagem com a minha cara. Logan continua cantando indiferente a situação e eu arrisco um olhar para o Matheus que está se levantando da roda.

– De vista… – Ele responde sorrindo. – Mas posso dizer que ela faz jus a música.

Crio coragem de levantar a cabeça e dizer um “oi” sem graça antes de lançar um olhar irritado para Carol que não percebe porque está devorando Logan com os olhos. Com Carol o jogo nunca é limpo. Quando comecei namorar o Matheus, flagrei uma conversa dela com a Bea onde ela dizia que não conseguia entender porque as coisas vinham tão fácil pra mim, e ela que se esforçava tanto não recebia a mesma atenção. Desde então nossa amizade entrou em declínio e ela não faz nem ideia.

O violão vai passando de mão em mão e eu decido que está na hora de dar uma volta e explorar um pouco o lugar. Passo por uma roda animada que discute o último jogo de futebol do campeonato e por uma turma de garotas que fazem planos de conquista para a noite, antes de me encostar em uma pedra.

– Oi.

Ergo o olhar para encontrar Matheus parado na minha frente. Seu rosto jovial e os olhos azuis brilhando. Abro um sorriso, ao perceber que sinto sua falta.

– Ei! Como foram a férias? – pergunto para quebrar o gelo.

Ele dá os ombros e coloca as mãos nos bolsos da jaqueta do time.

– O de sempre. Visitei minha avó.

– E como ela está?

– Do mesmo jeito. Desbocada.

Trocamos um sorriso cúmplice compartilhando a silenciosa lembrança de quando a avó dele nos pegou no maior amasso nos fundos da casa e anunciou isso na maior naturalidade na mesa do jantar com toda a família do Matheus presente. Ficamos ali, parecendo que nada havia mudado. Por um instante nos permitimos ser Matheus e Giovana de novo, mas como tudo na vida, a realidade acaba batendo na porta.

– Eu ainda acredito em nós, Gio. – sua voz sai rouca, sussurrada. Abro a boca, mas ele me corta. – Não importa o que você diga, eu só quero que você saiba disso.

Olho em seus olhos e tento colocar os meus sentimentos ali. O quanto é frustrante eu não conseguir levar nossa amizade além do que ela é: um sentimento muito forte de carinho e amor, mas com zero paixão. Ele abre um sorriso tímido e me deixa presa aos meus pensamento. Demos nosso primeiro beijo quando tínhamos quinze anos e o último aos dezenove. Matheus sabia coisas sobre mim que nem eu mesma havida dado conta, havia uma cumplicidade diferente entre nós e agora tudo tinha acabado.

– Gostou da música, Giovana? – Logan se aproxima me tirando do meu devaneio. Sorrio com a ênfase que Logan dá ao meu nome.

– Tava demorando… – ironizo. – A Carol foi ao banheiro?

É a única explicação pra ele estar ao meu lado sozinho, porque ela não desgruda.

– Ahhh – o sorriso dele é lindo e eu odeio pontuar isso toda vez que ele aparece, mas é inevitável. – Ela é sempre assim… Efusiva?

– Nah… Você é carne fresca, logo se acostuma.

– E você? Vai continuar resistindo ao meu charme ou o que?

– Awwn. Vou.

Ele coloca a mão no coração.

– Nem vai tentar me conhecer? – ele choraminga me fazendo cair na risada.

– Exatamente… Eu não quero conhecer ninguém agora.

– Mas quer conhecer o Daniel – ele insinua. – Ou o problema é o Matheus?

Lindo, americano, talvez atleta, não muito inteligente, com certeza. E vamos acrescentar observador a essa lista.

– Nós somos amigos agora? – me esquivo.

– Tudo bem. Sou homem o suficiente pra reconhecer que levei um fora.

– Nah… Você supera. A Carol…

– Por favor, não faz ficar mais humilhante – ele diz brincalhão. – Acho que vou voltar pra lá, antes que eu perca minhas bolas.

Depois de alguns minutos, sigo os passos de Logan até a fogueira, onde tudo se encontra do mesmo jeito em que eu a deixei, inclusive Logan tocando violão.

– Estou congelando aqui – Bea reclama mesmo estando pertinho da fogueira.

– Nesse caso, – Logan diz deixando a canção pela metade. – Eu vou ajudar o Guga a ser um cavalheiro. Tem um cobertor na minha mochila, pega lá e ajuda a aquecer a moça.

Guga levanta resmungando. Escroto. Logan volta a dedilhar a música do Los Hermanos, mas é interrompido de novo.

– Olha só! Nosso pequeno Logan tem um segredo! – Guga diz mostrando uma foto que estava na mochila para a roda.

– Ei. Não mexe nisso! – Logan diz colocando o violão de lado e se levantando abruptamente.

– Que gata! Ela sabe que você arrasta asa aqui na faculdade? – Guga provoca. Logan fica vermelho, com os punhos cerrados ao lado do corpo.

– Coloca onde você achou agora – Logan manda.

– Guga… – alerto.

Mas é tarde demais. Logan coloca o braço no pescoço do Guga, o pressionando contra uma arvore. Tudo é muito rápido, Bea começa a chorar e pede pra Logan parar, o rosto do Guga está vermelho e ele parece apavorado, os outros caras tentam separar os dois, enquanto Logan respira pesado e encara Guga.

– Foi mal, cara – Guga se desculpa.

– Nunca. Mais. Chegue. Perto. De Mim.

Com o recado dado, ele solta Guga, coloca a mochila nos ombros e sai pisando duro, deixando todos com cara de espanto. Não consegui ver a foto da garota, mas pela reação de Logan, deu pra notar que ela era importante. Todo mundo correu pra saber se o Guga estava bem, mas ninguém pensou que ele ultrapassou um limite, que ele invadiu a privacidade do Logan e que Logan tinha todo o direito do mundo de ter reagido aquilo. Guga estava dramatizando as coisas e eu não queria fazer parte desse teatro.  Caminho um pouco pelas pedras, até que vejo Logan sentando na ponte, olhando a cachoeira.

Está frio e gotinhas de água chegam até mim conforme me aproximo dele. Não falamos nada por alguns segundos, até eu notar que ele segura a foto. Estico o pescoço e crio coragem para pegá-la. A princípio, ele a segura com força, mas logo seus dedos afrouxam.

– Bonita. Quem é?

Mais silêncio.

A garota na foto é magra, tem o cabelo loiro acinzentado e sorri para a foto. Um sorriso genuíno, cheio de dentes e olhos apertados, como se alguém tivesse acabado de contar a melhor piada do mundo.

– Minha ex-namorada – ele responde.

Olho de novo para a foto, imaginando o lindo casal que eles formavam.

– O que aconteceu? Você ficou bem chateado lá na fogueira – pergunto delicadamente.

– Eu não gosto que mexam nas minhas coisas.

Ok, então. É obvio que tem algo mais ali, mas não vou pressionar. Ele pode não querer falar, mas posso está ali por ele. Apesar do frio, o céu está limpo e estrelado. Começo a contar as estrelas.

– Ela morreu. – As palavras saem assim, rápidas e duras. De repente ele se parece demais com a Carol, falando rápido, as palavras saindo sem controle como se ele quisesse se livrar delas. – Estávamos indo viajar no ano-novo, ela estava animada porque eu prometi lhe dar algumas aulas de surfe. Eram cinco da manhã, eu estava colocando a mala dela no meu porta-malas e ela estava encostada na porta bem ao meu lado. Um carro desgovernado veio… Ele a acertou em cheio. Foi tudo tão rápido, eu não tive… Ela não… – ele fecha os olhos com força, revivendo aquele momento horrível.

Tenho a sensação de que é a primeira vez que ele fala sobre isso. Aliso suas costas, sentindo seu corpo se chacoalhar segundos antes de as primeiras lágrimas rolarem. Ele chora até soluçar, até perder o ar, até se engasgar com os soluços. Logan é tão grande e ao mesmo tempo me parece tão pequeno ali, os ombros chacoalhando sem parar.

– Sinto muito.

– Não. Você não se importa. A gente não é amigo, lembra?

Tento ignorar o modo rude com que ele fala comigo porque sei ele está sofrendo, talvez a perda seja recente. Mas não sou de baixar a cabeça pra desaforo e nunca perco a chamada para ensinar uma boa lição.

– Não. Não somos. Mas isso é porque você tentou entrar na minha calcinha desde o primeiro momento. Você não precisa afastar as pessoas só porque está sofrendo, Logan. Sua namorada morreu e eu não consigo nem pensar em quão horrível isso seja, mas você não precisa passar por isso sozinho. Eu te conheço a menos de vinte e quatro horas mas… Pode contar comigo. – digo segurando sua mão.

– Desculpa… Você deve achar que eu sou louco, eu só estou perdido. Eu amava a Paula. Eu amo a Paula e sinto que nunca mais vou amar ninguém.

– Eu sinto muito… Eu sinto tanto, Logan. – O abraço, de verdade dessa vez, com ambos os braços envoltos em sua cintura, minhas mãos apertando suas costas, ele cheirava  como o verão e isso me fez feliz.

Ficamos lá por horas, ele se acalmando e eu me perguntando como deve ser você se sentir tão quebrado a ponto de desabar com qualquer pessoa. Com uma estranha. Como deve ser solitário você perder o amor da sua vida.

– Desculpa, Giovana. Por… – ele começa. Os olhos vermelhos e inchados, mas mais calmo.

– Você não tem pelo o que se desculpar.

Eu nunca mais vou amar ninguém ele dissera. As palavras dele não paravam de bater na minha cabeça. Parece injusto um discurso tão fatalista sair da boca de alguém tão jovem.  – Logan? Você acha que não vai se apaixonar de novo, mas vai. Eu te prometo… E tudo bem se apaixonar, Logan. Você não vai trair a Paula se isso acontecer. Ela quer que você seja feliz.

Ele não olha pra mim quando termino de falar, mas acaba concordando com um gesto de cabeça.

– Você não faz ideia né? – ele pergunta, me deixando confusa. – De como é linda.

– Não vamos fazer isso. Se vamos ser amigos você não pode… – digo me sentindo cansada.

– O que? Melhorar sua autoestima? Para que serve os amigos afinal?

Abrimos o primeiro sorriso em horas, e me surpreendo porque não é um sorriso pesado, é um sorriso real.

– Vamos voltar lá, acho que a gente precisa de uma cerveja – digo me levantando e limpando a sujeira dos meus shorts com tapinhas.

Logan e eu andamos lado a lado, ambos com as mãos no bolso. Os grupos agora estão mais dispersos, Carol e Bea estão em um canto afastadas com os braços cruzados parecendo bem insatisfeitas. Logan pega cervejas pra nós, mas acabamos ficando mais afastados do resto do pessoal.

– Acho que não sou a pessoa favorita delas – ele diz seguindo meu olhar.

– Bem, você quase matou o namorado da Bea e deixou a Carol pra ficar comigo… Então, talvez você esteja um pouco encrencado. – Digo com um sorriso.

– E o Matheus? Ele parece um cara legal, mas parece não conseguir tirar os olhos de você – ele aponta para o lado oposto de onde as meninas estão, no lugar exato onde Matheus está nos olhando.

– É… Ele é.

– Mas…

Ele havia compartilhado uma historia e tanto comigo, então talvez agora seja a minha vez.

– Nós nos conhecemos desde crianças. Ele é aquela pessoa que está sempre ao seu lado e todo mundo começa a achar que pode ter alguma coisa ali e de repente você começa a se perguntar se isso pode acontecer mesmo. Eu achava que eu devia isso, saber se podíamos ser mais. Começamos a namorar no ensino médio e terminamos no inicio das férias.

– Você terminou – ele deduz.

– É… Ele continua dizendo que ainda acredita em nós, mas está só se enganando. Ainda vai cair a ficha.

Uma risada acaba atraindo nossa atenção, Daniel está jogando cartas com uns caras, a risada dele é contagiante e eles começam falar muito alto. O corpo magro apoiado em uma árvore, o sorriso espalhado em seu rosto. Inconscientemente, suspiro. Logan termina sua cerveja enquanto a minha não chegou nem a metade.

– Ok! Meu primeiro conselho de amigo. Está preparada? – ele diz me fazendo sorrir. – O Daniel não é o cara que você espera que ele seja.

Me incomodo com suas palavras porque não gosto dessas suposições. Ele chegou há menos de um dia e já acha que sabe tudo sobre todo mundo? Dou os ombros e ignoro o alerta.

– Acho que preciso descobrir isso sozinha – me afasto, indo em direção as meninas. – Logan? Você não vai ser triste para sempre, tá?

13 comentários para “Vinho de Cereja – Capítulo Um”

Ana Claudia
22/09/2016 às 11:45

Que invejinha dessa Giovana kkkk amei essa vida dela


22/09/2016 às 11:54

Sofrida coitada!!!! HAHAHAHA


Gyselly
24/09/2016 às 0:44

Ah MDS’ cade a continuação ? ‘ já quero ? se só com esse 1 capitluo eu jà to apaixonada pelo Logan que deus grego e esse, essa historia tem tudo pra ser de apertar o coração . Luma mulher tu e maravilhosa, que dom incrível, vai arrasar sempre, que Deus te abençoe e que tudo dê certo e que esse seu dom possa ser reconhecido porque talento tem de sobra. confesso que fiquei um pouco curiosa com o título do livro ?


24/09/2016 às 1:36

HAHAHHAHAHAHAHAHA GYSELLY! Só vc mesmo :* Obrigada pelo apoio, maravilhosa!!!


Juliana
24/09/2016 às 14:43

Que delícia de leitura, Luma!!
Can’t wait for more… please!!


24/09/2016 às 16:02

Obrigada, Ju


Juliana Rocha
25/09/2016 às 11:57

Muito bom Luminha! Você arrasa! Quando sai o próximo?


25/09/2016 às 13:15

Obrigada, Jujubinha! Até dia 28 estará online :*


ESLEY BARROS
26/09/2016 às 21:55

Aí meu coração ..♡♡♡ Eu estou simplistente apaixonada e exigo que tu poste mais. ?
Lembra do livro do Whatpadd que faltava de deixar louca pra ti postar ?? Então eu estou mais apaixonada por esse e você sabe o que isso significa né? Que orgulho eu tenho dessa gata gente. Ela arraza de mais. Entao Luminha corre aí e posta mais se você quiser ter paz. Kkk Você arraza sempre, parabéns por esse dom maravilhoso de encantar as pessoas com esses personagens divos que você cria. Te desejo todo sucesso do mundo. Você merece. E só pra não esquecer. POSTA MAIS POR FAVOR.?♡♡
Obs. Estou curiosíssima pra saber o motivo do título do livro. 🙂

Beijo. ;* Te admiro demais da conta. ♡♡♡


27/09/2016 às 0:16

Hahahahahaha obrigada! É muito bom ouvir essas palavras pq a gente que trabalha com a imaginação, depende muito de feedback pra se manter motivado. Saiba que o sentimento é recíproco e que estou sempre aplaudindo seu sucesso.


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